Notícia

Suplemento Pernambuco

[A ciência como ela é] Niltinho

Publicado em 29 outubro 2021

Em agosto de 2020, quando a pandemia de covid-19 ainda exigia de cientistas ao redor do mundo noites insones numa corrida para buscar uma vacina e entender de que maneira o vírus se comportava e se espalhava, o Pernambuco, em parceria com o Instituto Serrapilheira, lançou uma série de contos inéditos, escritos por 12 escritoras e escritores brasileiros. A série foi batizada de Botão Vermelho, o índice de "urgência" implícito ao nome. A ideia era fabular com inspiração em pesquisas científicas apoiadas pelo Serrapilheira. A motivação vinha simultaneamente do desejo de divulgar a fortuna da ciência produzida no Brasil em ambientes da imaginação, mas sobretudo de dar relevo a um trabalho que se tornou alvo de perseguições negacionistas. Em outubro de 2021, a ciência brasileira sofre um baque de proporções trágicas. Mais de 90% do orçamento para a ciência no país foi cortado, há um projeto de destruição em curso. Novamente, é preciso falar de ciência. E desta vez, mais especificamente falar de quem a produz.

Nossa nova série em parceria com o Serrapilheira chama-se A ciência como ela é, e vai reunir crônicas e ensaios literários inspirados em cientistas de todo o Brasil que, de dentro de seus cotidianos e pequenos grandes feitos, nos tocam nas dimensões mais essenciais e afetivas de nosso relacionamento com o mundo. O primeiro texto, do escritor Luís Henrique Pellanda, você lê logo adiante.

A ciência como ela é tem edição da pesquisadora e curadora Carol Almeida e imagens do ilustrador e animador Matheus Mota.

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O VÍDEO

— O aniversariante hoje é Niltinho. Abra seus presentes, meu bem.

Quem diz isso é Sâmia. É ela quem filma a cena. Niltinho sorri, um legítimo ator em sua marcação, à espera das instruções da diretora. Diante dele, na mesa posta para o café, a toalha plástica imita alegres retalhos coloridos, enfeitada por um único balão azul. Um móbile de estrelas, indiano, pende da parede. Há tranquilidade e fartura na disposição dos elementos que compõem o cenário. Uma garrafa de leite, outra de suco de laranja, uma térmica preta. Geleia e requeijão, pãezinhos e frios. Duas velas se equilibram no topo de uma pilha de pães de queijo, formando o número 34, os pavios já queimados. Os presentes a que Sâmia se refere também estão ali, em duas sacolas. Niltinho alcança uma delas, curioso. Desembrulha uma camisa do Clube do Remo, linda, excepcionalmente vermelha. Seu rosto se ilumina, incorpora o torcedor que desde menino sente orgulho do seu querido Leão Azul, 46 vezes campeão paraense. Sâmia anuncia que a camisa é um presente de Nádia, Cycy, Vitinho, papai e mamãe. Ela quer saber se ele gostou. E então se ouve a voz tímida do aniversariante:

— Muito.

Atrás de Niltinho há uma estante de aço preta, emoldurada com lâmpadas de diversas cores. É manhã de segunda-feira em São Paulo, 22 de fevereiro de 2021. Não é preciso acender as luzes, há claridade suficiente na sala. Na estante há livros, CDs, uma pequena coleção de vinis e uma vitrola portátil laranja, recém-comprada pelo casal. Niltinho apanha a segunda sacola, o presente de Sâmia: é um disco da Gal, o primeiro trabalho solo lançado pela cantora, em 1969. Satisfeito, o aniversariante examina a grande foto da capa. Envolta em plumas brancas, Gal tem 23 anos.

A CAMISA

Os cabanos invadiram o palácio do governo de Belém no dia 7 de janeiro de 1835. Executaram o presidente da província do Grão-Pará, Lobo de Sousa, e tomaram o poder, provisoriamente. As lutas duraram cinco anos. Estima-se que 40 mil negros, indígenas e mestiços tenham sido mortos pelas tropas imperiais. E é justamente o sangue de toda essa gente que o vermelho na camisa de Niltinho relembra e reverencia. Nas costas da peça, além do mapa do Pará, há uma legenda em letras cursivas douradas: “O espírito guerreiro do Clube do Remo”. Nas suas mangas, lemos as datas do início e do fim da revolta: 1835–1840. Discretos motivos marajoaras permeiam toda a urdidura do uniforme. Tanto Sâmia quanto Niltinho se identificam profundamente com aquele movimento. Cresceram no lugar onde tudo aconteceu, mas só aos poucos foram tomando a consciência de que também eram cabanos. De alguma forma tinham que ser. Na faculdade já se sentiam arrebatados por aquele mesmo princípio de reforma e inclusão. Estudar era sobretudo um ato político. Eram estudantes amazônicos. Sâmia, brincando, ainda tinha o hábito de dizer a Niltinho:

— Me respeita, eu sou da Cabanagem!

Niltinho sorria e respeitava.

A PRAIA

Até os onze anos, Niltinho viveu em sua cidade natal, Abaetetuba. Aprendeu a nadar sozinho, na praia fluvial de Beja, às margens da Baía do Capim. A mãe, Maria Nércia, garante que o menino nunca deu trabalho. O que não impediu Nilton Luiz, o pai, de apelidar o filho de Cobrinha Elétrica. Hoje quem escuta isso pode até pensar que Niltinho não parasse quieto. Engano. Não que não fosse bem-disposto, dinâmico, divertido. Era. Mas gostava mesmo é de dormir. Dormia muito e com prazer, como se reservasse energias para um futuro de cientista que, até então, somente ele antevia. Sempre calado, nunca falou a ninguém sobre o que gostaria de fazer da vida. Dormindo, talvez já sonhasse com o laboratório da USP que o acolheria três décadas mais tarde. Quem sabe? Fato é que jamais revelava seus planos. E, pensando bem, revelar para quê? Três décadas passam rápido. A infância de Niltinho, por exemplo, passou. Um dia, Nilton Luiz, servi-dor do Banco do Brasil, pediu transferência para Belém. Na época Abaetetuba já era conhecida como a “Medellín Brasileira”. Agravavam-se os problemas ligados ao tráfico e ao contrabando. Seria melhor que Niltinho, Nádia e Cycy estudassem na capital. Assim, partiram todos para a metrópole. Embora tenham mantido a velha casa perto da água doce, a duas horas de estrada, para as premências da saudade e dos veraneios.

O CONDOMÍNIO

A família de Niltinho se instalou num dos muitos conjuntos habitacionais que não paravam de surgir e crescer ao longo da então Rodovia Augusto Montenegro, hoje transformada em avenida. Por aquele mesmo traçado correu, por mais de um século, a extinta estrada de ferro Belém-Bragança. Tradicional trincheira das lutas populares pelo direito à moradia, o condomínio Augusto Montenegro III era formado por dez blocos de quatro pavimentos, com vinte apartamentos por andar. O de Niltinho contava com dois quartos: um para Nilton e Nércia, outro para ele e as três meninas, Nádia, Cycy e Bibi, uma prima agregada. Elas ficaram com o treliche e Niltinho com a rede, onde dormiu até entrar na faculdade. Nunca reclamou. No Montenegro, afinal, não havia praia, mas havia Sâmia. Foi ali que se conheceram, aos treze, catorze anos. Estudaram no mesmo colégio, o Sophos, onde Niltinho se acostumou a ser o melhor aluno.

O BEIJO

Sâmia não passou no vestibular de Medicina. Niltinho passou no de Engenharia de Alimentos, na UEPA. Havia, portanto, bons motivos para que, naquele dia, ambos bebessem um bocado. Assim, ficaram irresistivelmente bêbados, como convém aos jovens que se amam e ainda não se governam, e então se beijaram pela primeira vez. Niltinho, pouco depois, trocou de curso e universidade. Foi para a UFPA, onde se graduou em Biomedicina e fez um mestrado em Neurociências. Em 2011 se mudou para São Paulo, atrás do doutorado em Farmacologia na USP. Três anos depois, Sâmia, sua companheira da vida, estava lá com ele, graduada em Engenharia Ambiental, também avançando na carreira acadêmica.

AS BRUXAS

Em São Paulo as coisas se complicaram. Niltinho já concluíra um primeiro pós-doutorado e cursava o segundo, mas não conseguia descolar uma bolsa. Aguardava um parecer da Fapesp, um nó que custava a ser desatado. Dinheiro não havia, e era urgente garimpá-lo. Sâmia arranjou trabalho numa padaria e numa loja de shopping, preparava jantares típicos da culinária paraense. Ela e Niltinho vendiam frangos numa rotisseria, e ele, que vivia queimando as mãos, chegou a considerar a possibilidade de um bico extra, como motorista de aplicativo. Em Belém, sempre atenta e forte, Nércia acendia velas em benefício do filho.

Uma tarde, em meados de 2019, Sâmia voltava de ônibus para casa, na Pompeia, quando recebeu uma mensagem de Lígia, uma amiga do casal. Era uma corrente de reza enviada pelo WhatsApp. Sâmia, criada no catolicismo, entusiasta do Círio de Nazaré, filha de Omolu e Oxum, achou que mal não faria: a corrente recomendava olhar para o céu e rezar, às cinco em ponto, pedindo uma dádiva. Por que não? Estava quase na hora. Repassou a mensagem para o agnóstico Niltinho, que, cético, achou graça, embora prometesse tentar. Rezaram juntos, ela no ônibus, ele na janela do laboratório onde trabalhava. O que Niltinho confidenciou a Deus, não temos como saber. Sâmia, porém, falou o seguinte:

— Deus, não tenho nada a te pedir. Mas tem o Nilton. Os meus caminhos estão abertos. Os dele, entrelaçados. Faça com que ele ganhe a bolsa e seja reconhecido.

Pouco depois, Niltinho lhe enviava uma mensagem:

— Vocês são bruxas?

A bolsa havia sido aprovada. Sete mil reais por mês, durante dois anos. Sua pesquisa estava salva. Ele poderia se dedicar a ela em tempo integral. Naquela noite comemoraram. Compraram vinhos e queijos. Foi a melhor noite que viveram juntos. E a vida, a partir dela, passou a ser muito legal.

A TATUAGEM

Niltinho sempre gostou de estudar biologia, em especial as matérias que aludiam ao funcionamento do nosso corpo. Seus familiares só não sabem precisar por que razões ele teria se dedicado à investigação do cérebro humano em particular. Conceberam, no entanto, uma terna hipótese para o assunto. Décadas atrás, Niltinho teria ficado muito apreensivo com o estado de saúde de sua irmã mais nova, Cycy, que ainda adolescente havia passado por uma grave crise depressiva. E a angústia que então experimentou o teria direcionado àquela vasta seara científica. Pode ser.

Seja como for, o cérebro sempre foi uma segunda casa para Niltinho. Foi seu habitat e seu refúgio. Prova disso são seus desenhos. Ele preenchia cadernos e mais cadernos com charges, caricaturas e figuras feitas a lápis ou a caneta. Nada de muito elaborado, uma paixão sem compromissos. Num de seus esboços mais emotivos, vemos um neurônio verde, configurado de modo a que pudéssemos confundi-lo com uma imensa árvore desfolhada, mas de intensa e delicada ramificação. Essa árvore, ou esse neurônio, ou essa representação do que seria o amor de Niltinho pelo mundo e pelas coisas vivas, é hoje uma tatuagem no peito de Sâmia.

O LABORATÓRIO

LaNEFI.Laboratório de Neuroendocrinofarmacologia e Imunomodulação do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo, localizado no Campus Oeste da instituição, no bairro do Butantã. Eis o laboratório onde Niltinho com tanto gosto se enfurnava desde 2012. Foi ali que Niltinho encontrou Leo, com quem conviveu diariamente durante os últimos nove anos. Poucas vezes estiveram separados. E tinham realmente muito em comum: eram ambos pesquisadores de talento, doutores em Farmacologia. Leo apenas preferira aprofundar-se no estudo das doenças neuropsiquiátricas, enquanto que Niltinho cuidava das neurodegenerativas. Mais que colegas, tornaram-se amigos, praticamente irmãos. Vizinhos, inclusive. Niltinho podia ler os pensamentos de Leo, e Leo os de Niltinho, suas mentes pareciam sintonizadas, dentro ou fora do LaNEFI, quase que prescindindo de qualquer outro tipo de comunicação.

Em seu primeiro pós-doutorado, Leo explica, Niltinho buscava entender de que forma alguns mediadores endócrinos, como os glicocorticoides, afetavam a progressão da esclerose múltipla, exercendo um efeito positivo sobre o sistema motor dos pacientes, mas negativo sobre seu sistema nervoso central. Já em seu segundo pós-doc, o cientista pesquisava as investidas do estresse psicológico contra esse mesmo sistema, mais notadamente em relação a transtornos de humor comuns, como a depressão e a ansiedade. Aliás, foi graças a seus avanços nesse projeto que Niltinho acabou sendo aprovado num programa de intercâmbio no Hospital Mount Sinai, em Nova York.

Já estava quase tudo pronto. Sâmia e Niltinho se mudariam para um apartamento no Harlem no início de 2020. Mas a pandemia os fez adiar a viagem. E enquanto não pudessem partir, Niltinho resolveu se juntar a um novo grupo de pesquisas, chefiado pelo médico patologista Paulo Saldiva. Ao lado de Leo, também integrante da equipe, coube a Niltinho estudar o impacto da covid no cérebro humano a partir da análise de amostras do bulbo olfatório e do córtex de pacientes do HC mortos pela doença.

O ÁLBUM

Em dezembro de 1968, baixou-se o AI-5. Gal Costa lançou seu álbum de estreia em março de 1969. Caetano Veloso e Gilberto Gil haviam sido soltos em fevereiro e logo partiriam para o exílio em Londres. Era o funeral da Tropicália.

Sâmia e Niltinho amavam aquele LP, a começar por sua faixa de abertura, Não identificado, composta por Caetano. Mas o que tornava esse disco tão emblemático, ao menos para eles, era a penúltima música do lado B, A coisa mais linda que existe, parceria de Gil com o poeta Torquato Neto. Sempre que bebiam, ou melhor, sempre que ficavam bêbados juntos, como naquele remoto dia de seu primeiro beijo, Sâmia e Niltinho davam um jeito de ouvir e reouvir essa canção, e então riam, olhando um para o outro, e bebiam um pouco mais, e se olhavam e olhavam, sem cansar, sempre rindo, e ouviam a Gal cantando, para rindo cantarem com ela que era “lindo ter junto ao corpo a ternura de um corpo manso na noite da noite escura”.

OS HIPOTÁLAMOS

Niltinho era tímido, assim como Leo. Nunca gargalhava, pois era dos que sorri-em. Sagaz, sem ser inconveniente. Brincalhão, sem jamais ofender ninguém. Tinha um espírito leve, embora comprometido. Adorava conversar, trabalhar, comer churrasco, beber cerveja, ir a festas. Não era de recusar convites. Por isso, quando Leo o chamou, em 2013, para ir com ele e a esposa, Marina, até Santos, Niltinho topou na hora. Ele estava sozinho, Sâmia ainda morava em Belém, no Augusto Montenegro III, e só se mudaria para São Paulo um ano mais tarde.

No carro, à noite, enquanto desciam para o litoral, Leo pôs para tocar um CD duplo da Gal, recém-lançado: Recanto ao Vivo. E mais uma vez uma canção de Caetano interpretada pela cantora impressionava Niltinho. Tudo dói abordava os mistérios do envelhecimento de um modo enigmático e comovente. “Viver é um desastre que sucede a alguns”, cantava Gal, já com 68 anos.

O verso que mais chamou a atenção de Niltinho, no entanto, foi outro: “Os hipotálamos minguam”. Enfeitiçado, repetiu a frase durante toda aquela viagem: “Os hipotálamos minguam, os hipotálamos minguam”. E continuou a repeti-la nos dias seguintes: “Os hipotálamos minguam”. Até que aquilo se transformou num mantra, uma piada interna, um código secreto entre amigos. Volta e meia, no laboratório, Niltinho se virava para Leo e decretava: “Os hipotálamos minguam”. Às vezes, porém, o que minguava não era um hipotálamo, e sim um hipocampo.

Na verdade, tudo míngua, tudo dói. Mas ser jovem, ninguém há de negar, é bom demais.

AS ESTRELAS

O móbile de estrelas me lembra uma cadeia de células nervosas. Me faz imaginar um móbile de neurônios, sinapses interligando estrelas, o céu e o cérebro. Penso nisso e me vem à memória a cena de abertura de Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, filme de que Sâmia e Niltinho gostaram muito. Ao som de Não identificado, a câmera desce do espaço, por onde navega entre os astros, até cair em direção à Terra. De repente estamos numa estrada, cruzando o sertão pernambucano. Por ela trafega um caminhão, que logo cruza com outro, carregado de caixões vazios, só que tombado. O cadáver de um motoqueiro jaz sobre o asfalto enquanto a população se aproveita do desastre (dis + astro, “má estrela”) para roubar caixões. É um prenúncio óbvio de violência, a alegoria de um genocídio anunciado. Mais adiante, avistamos as ruínas de uma escola pública, mas não paramos, apenas registramos o que vimos e seguimos em frente.

A CERVEJA

Para o pesquisador Niltinho o coronavírus estava mesmo destinado a permanecer nas sombras. Caprichoso, inatingível. Um agente do imponderável.

— A covid é uma roleta-russa.

Era algo que ele costumava dizer quando falava sobre sua pesquisa. Tanto que um vizinho lhe deu de presente, no dia do seu trigésimo quarto aniversário, uma garrafa da cerveja artesanal Roleta Russa. Garrafa que nem chegou a ser aberta. Duas semanas depois de ganhá-la, Niltinho testou positivo para covid-19.

AS BORBOLETAS

A cada notícia de melhora no estado de saúde de seu irmão, na UTI do Hospital Emílio Ribas, Cycy, lá em Belém do Pará, via uma borboleta. Até que em algum momento elas deixaram de aparecer. Foi no dia 4 de maio de 2021.

A DOAÇÃO

A mãe de Niltinho acredita que a maior qualidade do filho era a humildade. “Ele sempre pensava no coletivo”, diz Nércia. Sâmia, que desde menina chama a sogra de tia, concorda. Tudo que ele fazia era por consideração aos outros. Emprestava o carro para um vizinho que trabalhava longe e ia, ele próprio, de Uber para o laboratório. Sentia vergonha de dizer que era doutor, achava um abuso. Escondia as credenciais, pedia discrição. Durante a pandemia, sócio remido, chegou a doar dinheiro para o Clube do Remo. Por fim, doou seus próprios tecidos celulares para o grupo de pesquisa que integrava. Leo às vezes pensa no amigo ao perscrutar o imenso universo que pode estar contido na mais exígua das lâminas sob o seu microscópio. Tudo ali é falsamente miúdo, e até mesmo o vírus se assemelha a um corpo celeste.

Escuto essas histórias e me sinto um intruso na dor dessas pessoas. Digo isso a Sâmia, a Nércia e a Cycy, e peço que me perdoem. Elas garantem que não há problema. Niltinho é que não aprovaria tamanha exposição. Se soubesse que falaram sobre ele comigo, brinca Cycy, voltaria de madrugada, puxar o pé de todas elas. Rimos, pois é mesmo preciso rir. Mas depois ficamos em silêncio por uns instantes, até Sâmia dizer:

— Nada era dele, tudo era de todo mundo.

O VERSO

“A coisa mais bonita que existe é ter você perto de mim.”

A CAMISETA

Hoje os muitos amigos de Niltinho vestem uma camiseta estampada em sua homenagem. A ilustração é alegre, irreverente, quase caricatural. Niltinho, de pé, enverga um guarda-pó branco. Por baixo, a camisa do Remo, clássica, azul. Ao seu lado, uma pilha de livros. Ele segura um deles, aberto, de capa vermelha. Também vermelha, atrás de Niltinho, tremula uma bandeira triangular. Com a mão, o cientista faz o L de Lula. Sorri. A legenda informa: “Niltinho, presente!”.

A LIBÉLULA

Na noite do dia em que as cinzas do menino cientista voltaram a Abaetetuba, levadas por uma pequena carreata de familiares e amigos vinda de Belém, uma libélula deixou a beira-d’água onde nasceu, cruzou a escuridão das matas fechadas do Pará e foi pousar, gentil e equilibrada, pertinho de uma lâmpada acesa, na velha casa de veraneios e saudades do doutor Nilton Barreto dos Santos.