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A cidade que faz bem

Publicado em 23 outubro 2016

Aquele velho ditado “você é o que você come” ficou para trás. Com um mundo cada vez mais urbano, hoje se pode dizer que “você é onde você vive”. O planejamento das cidades tem grande influência sobre a saúde: a organização de ruas, bairros, parques, avenidas, entre outros componentes, impacta direta e indiretamente na prevalência de doenças respiratórias e males crônicos, como obesidade, diabetes, câncer e hipertensão. Calcula-se que, em 2050, 75% da população mundial esteja concentrada no meio urbano.

A associação entre planejamento das cidades e saúde da população foi tema de um especial recente da revista médica The Lancet que teve a participação de pesquisadores brasileiros. Os investigadores citam barulho, exposição ao tráfego, poluição do ar, isolamento social, sensação de insegurança, falta de atividade física, passar muito tempo sentado e dietas não saudáveis como principais ameaças aos moradores urbanos.

“Quando você fala de planejamento de cidade impactando na saúde, você está falando desde mobilidade a como as casas são edificadas, além do aspecto do calor, que pode afetar pessoas mais velhas, e acesso aos serviços”, exemplifica Rodrigo S. Reis, pesquisador do Centro de Pesquisas em Prevenção da Universidade de Washington em St. Louis. Coautor da série publicada na The Lancet, o brasileiro esteve envolvido, entre outras iniciativas, no Projeto Guia Útil para Intervenções de Atividade Física na América Latina.

Das variáveis urbanas relacionadas à saúde, as distâncias e o meio usado para vencê-las estão entre as que mais impactam, direta e indiretamente, na prevalência de doenças crônicas porque afetam desde a poluição atmosférica ao sedentarismo, problema associado a diversas enfermidades. Pesquisador do Departamento de Nutrição da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (ESP-USP), Thiago Hérick de Sá explica que o modelo de cidade compacta — aquela com maior densidade populacional, menores distâncias entre moradia/trabalho/comércio/serviços e uso mais diversificado dos espaços — pode, por isso, reduzir de doenças respiratórias a obesidade.

Como bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), o pesquisador participou de um estudo internacional que avaliou o impacto desse modelo em seis metrópoles com características distintas: São Paulo, Melbourne (Austrália), Boston (Estados Unidos), Londres (Inglaterra), Copenhague (Dinamarca) e Nova Déli (Índia). Em todas, a condensação populacional e a melhora dos sistemas de transporte resultaria em ganhos para a saúde.

Em São Paulo, por exemplo, intervenções urbanas que reduzissem em 30% as distâncias e aumentassem a diversidade de oferta de serviços próxima às áreas de trabalho e moradia teriam, como consequência, um aumento de 24,1% da atividade física dos moradores. Com esses trajetos encurtados, caso 10% dos usuários de automóveis se deslocassem mais a pé ou de bicicleta, eles reduziriam em 4,9% a emissão de material poluente na atmosfera, resultando em uma queda de 7% nos casos de doenças cardiovasculares e de 5% nos de diabetes 2.

O trabalho também foi publicado no especial da The Lancet. “Muitas vezes, a saúde é entendida como doença, como problema do indivíduo ou em termos de serviço de saúde”, diz Hérick de Sá. “Nos artigos, quisemos chamar a atenção para a promoção da saúde, que é inegavelmente impactada pelo planejamento urbano. Uma cidade mais compacta aumenta o nível de atividade física e diminui a poluição do ar. Você ganha em todos os sentidos”, observa.

A servidora do Hospital Regional da Asa Norte (Hran) Ana Silvia Pires da Silva, 46 anos, assina embaixo. “Só tenho a ganhar”, diz, sobre o hábito de se deslocar do Sudoeste, onde mora, ao local de trabalho de bicicleta. Entre os dois bairros, a distância é de aproximadamente 7km, que Ana Silvia percorre sem sustos, pela ciclovia. Só no último quilômetro, a falta da faixa para bicicletas é um entrave. Mas isso não a desanima. Desde que trocou o transporte público pela bicicleta, ela notou melhora na circulação, um aspecto da saúde do qual precisa cuidar, pois já precisou operar a safena.

Escolhas

De acordo com Thiago Hérick de Sá, no planejamento das cidades, os gestores têm de fazer escolhas que nem sempre favorecem a qualidade de vida. “Você faz um parque ou um prédio? Como você democratiza o verde? Quem está sendo privilegiado?”, questiona. O especialista em prevenção Rodrigo S. Reis lembra que, para favorecer a população como um todo, não basta ter parques e áreas de lazer — é preciso torná-los acessíveis. “Brasília, por exemplo, foi concebida desconectando as pessoas, o serviço e o lazer. O desenho de uma cidade tem de considerar todos os grupos e trazer a vida plena e com escolha. Dar oportunidades para que a pessoa escolha. Se você depende de carro e não tem, se você mora longe dos serviços, do lazer, então, você não tem muita escolha.”

O analista de informática Flávio Xavier Mota, 60 anos, pode se considerar um privilegiado. Ele tem carro, mas optou por deixá-lo na garagem. Morador da 203 Norte, Flávio vai ao trabalho, no Setor de Embaixadas Norte, a pé, todos os dias, perfazendo 4km, ida e volta, por um trajeto de fácil acesso a pedestres. “Odeio carro e acho que as pessoas ficam muito agressivas no trânsito”, conta. Além de evitar a chateação do tráfego, ele destaca a vantagem do contato com a natureza, outro aspecto importante para a saúde mental dos moradores de cidades, de acordo com estudos recentes. “Gosto muito da natureza. A pé, posso ir contemplando o sol e as plantas. Não é nenhum sacrifício”, diz.

Veiculo: CORREIO BRAZILIENSE (DF)

Secao: OPINIÃO

Data: 2016-10-23

Localidade: DISTRITO FEDERAL

Hora: 06:54:45

Tema: SAÚDE COLETIVA

Autor: Paloma Oliveto

Veiculo: CORREIO BRAZILIENSE (DF)
Secao: OPINIÃO
Data: 2016-10-23
Localidade: DISTRITO FEDERAL
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Tema: SAÚDE COLETIVA
Autor: Paloma OlivetoVeiculo: CORREIO BRAZILIENS