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Revista Lide

A cidade mais inteligente

Publicado em 01 dezembro 2018

Um centro urbano que oferece oportunidades, enfrenta desafios e apresenta alternativas para seus moradores terem mais qualidade de vida e conectividade pode ser classificado como “inteligente”. Em 2018, Curitiba alcançou o primeiro lugar no Ranking Connected Smart Cities (CSC), plataforma que reúne especialistas e interessados em inovação em busca de soluções em conexão e sustentabilidade. O estudo é realizado pela Urban Systems, em parceria com a Sator, empresa de eventos, e avalia 70 indicadores, agrupados em 11 setores: urbanismo, mobilidade, meio ambiente, energia, tecnologia e inovação, economia, educação, saúde, segurança, empreendedorismo e governança. Da lista com 700 participantes da edição 2018, divulgada em setembro, a capital paranaense ficou com o título de “cidade mais inteligente do país” e ainda foi a primeira colocada em governança, a segunda em empreendedorismo e urbanismo e a terceira em tecnologia e inovação.

São Paulo ocupa a segunda posição na classificação geral. Mesmo à frente em dois segmentos – urbanismo e mobilidade –, recuou em empreendedorismo. Vitória, diferentemente, está em uma curva ascendente e alcançou o terceiro lugar, à frente de Campinas e Florianópolis.

A capital do Espírito Santo se destaca em saúde, setor em que se mantém em primeiro lugar nestes quatro anos, e educação, no qual só no ano passado não esteve em primeiro. O Rio de Janeiro caiu para a sexta posição, depois de dois anos na terceira e de ter sido líder na edição inicial do ranking, em 2015. Especialista em mecatrônica, o engenheiro Hermes Loschi é um dos promotores do Smart Cities Course, da Escola de Extensão da Unicamp (ExteCamp). A edição deste ano reuniu um grupo multidisciplinar e teve foco em gestão pública – um indicador fundamental na classificação do Ranking CSC. “É preciso pensar em longo prazo na aplicação de recursos.

A estratégia de governo influencia a classificação, que pressupõe ações políticas bem-sucedidas, interação com moradores e tecnologia instalada com eficiência”, afirma. “Cidade inteligente se faz com gestão pública e canais abertos para interface com os cidadãos.” A gerência integrada de serviços de telecomunicações é um bom modelo de integração para as smart cities, segundo Loschi. Ele defende uma “ouvidoria mista”, em que moradores detectem problemas e proponham soluções aos agentes públicos.

Reunir informações vitais com custo reduzido é a proposta de Alfredo Goldman vel Lejbman, cientista da computação da São Paulo School of Advanced Science in Smart Cities, que faz parte do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT). A ideia da escola é ambiciosa por sua escala mundial nessa área de pesquisa. “A proposta é desenvolver uma plataforma de coleta e atualização de dados disponíveis para acesso de especialistas”, diz.

“E o papel da ciência da computação é usá-los para identificar problemas não tão evidentes, como gargalos de trânsito e falta de hospital em determinada região.” Goldman cita um pesquisador que analisa se faz mal à saúde do paulistano exercitar-se ao ar livre. Para isso, utiliza sensores que medem poluição e avaliam custo-benefício de correr em determinada área – ou se é melhor manter a atividade por certo tempo. Com fórmulas quantificadas seria possível montar um aplicativo a ser acessado por usuários no dia a dia. A questão da cidade é seu tamanho e dinamismo, segundo Goldman.

De repente, situações complicadas podem se agravar por causa de uma tempestade ou um acidente de trânsito. “Nosso desafio, e ao mesmo tempo nossa riqueza de trabalho, vem da escala de São Paulo.” Nascido, criado e morador de Curitiba, Roberto Marcelino é um dos fundadores e diretor da iCities, empresa especializada em projetos, soluções e eventos relacionados ao tema. O curitibano, que vê a capital paranaense chegar ao topo da lista de cidades inteligentes do Brasil, destaca a governança como fator determinante. “Um gestor público precisa estar preparado para novos desafios a cada momento, sem protelar soluções. Ao mesmo tempo, não pode estar mais preocupado com eleições do que com seu poder executivo, sem dar vazão a processos necessários.” Engenheiro agrônomo com pós-graduação em marketing, Marcelino lembra que a cidade “estacionou” por algum tempo e perdeu atrativos depois de ficar conhecida como modelo no Brasil pelos projetos urbanísticos de Jayme Lerner – incluindo transporte público e parques.

“Curitiba iniciou uma transformação há alguns anos e o prefeito Rafael Greca chegou à administração municipal nesse momento. Com apoio ao Vale do Pinhão, empresas da área de TI estão expandindo e cresce o número de startups. Também houve inovação na Secretaria de Finanças, com experiência trazida do setor privado. A cidade saiu de um rombo de R$ 2 bilhões para um saldo positivo de R$ 1 bilhão”, afirma. Segundo o executivo, Curitiba voltou a reter talentos e a ser atraente para investidores.

Ele cita estratégias como o Saúde Já, com marcação de consultas em postos por aplicativo, e o Fala Cidadão, que funciona como uma curadoria. “As informações que cada indivíduo passa, de graça, são valiosíssimas. Quantos funcionários não seriam necessários para identificar problemas da metrópole e ouvir sugestões?” No cenário internacional, o ranking 2018 do Iese Business School (fundado na Espanha em 1958) apontou Nova York como “a cidade mais inteligente do mundo” entre 165 analisadas, seguida por Londres, Paris, Tóquio, Reykjavik, Singapura, Seul, Toronto, Hong Kong e Amsterdã.

A metróple americana também é a primeira em economia e planejamento urbano, terceira em divulgação internacional e quarta em capital humano e em mobilidade e transporte. Mas é atrasada em meio ambiente (99a ) e cooperação social (109a ). Buenos Aires é a mais bem colocada da América do Sul, em 76o lugar, e São Paulo, a primeira das brasileiras, em 116o, com Rio de Janeiro em 126o, e Curitiba em 135o.