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Universia Brasil

A chave para cair no mundo

Publicado em 21 maio 2007

Veja as manhas para ampliar as chances de conseguir bolsas no exterior

Cartas de recomendação, formulários preenchidos corretamente, fluência na língua estrangeira, ter sido aceito numa universidade estrangeira, documentação em dia. Tá, esses são os requisitos formais pra você concorrer a uma bolsa de estudos no exterior. Mas, além deles, há recursos intangíveis que facilitam ou dificultam a sua aprovação no processo seletivo. O que omitir e o que ressaltar na hora da entrevista? Para que perfil cada instituição que fornece bolsas dá preferência? O Universia foi atrás de quem conseguiu passar por todos os crivos para entender essas questões, além das próprias instituições e agências de fomento.

Existem diversos tipos de bolsas, direcionadas para diferentes perfis. Há as parciais, as integrais, para graduação, mestrado e doutorado. Há aquelas destinadas apenas para alunos de países em desenvolvimento, só para minorias, específicas para certas áreas de estudo. Mas, independentemente de todas essas especificidades, de forma geral, os candidatos preferidos das instituições de fomento são aqueles que demonstram estar muito bem informados sobre a área de estudos que querem cursar, a melhor universidade que oferece curso naquela área,o país mais especializado no assunto. Além disso, sempre observam se o estudante é antenado sobre o mundo e seu país - ou seja, sabe exatamente onde aquele tema se insere no contexto mundial e brasileiro e o que ele poderia agregar de inovador em cada contexto. As instituições costumam também admirar estudantes esforçados, que enfrentaram obstáculos financeiros e pessoais para conseguir chegar ali. "Ganha ponto quem mostra que é uma pessoa persistente, perseverante. Pessoas que desde jovem venceram todas as adversidades para atingir seus resultados, capazes de trabalhar duro", afirma Luís Loureiro, diretor executivo da comissão Fullbright - Comissão para Intercâmbio Educacional entre os Estados Unidos da América e o Brasil.

Quem demonstra que o seu intuito principal é morar um tempinho fora, independentemente do que for estudar por lá, está descartado do processo seletivo. A banca que seleciona tampouco pode perceber que a bolsa foi seu ponto de partida, a isca que o motivou a estudar fora - por mais que essa seja a real motivação de vários estudantes. Eles valorizam quem faz o caminho inverso: um tema de interesse motiva o estudante a correr atrás de uma bolsa.

"Esses dias, um dos candidatos disse na entrevista que estava ali porque tinha ficado sabendo da oferta de bolsas de estudos para a Alemanha e então resolveu investigar um tema interessante de estudos porque adorava aquele país. Isso pegou mal, ele não passou na seleção", conta Gabriele Althoff, diretora da DAAD (Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico), maior programa de estímulo ao intercâmbio estudantil da Alemanha. Segundo ela, ganha pontos quem chega na entrevista até com o nome do docente que vai orientar sua tese ou monografia na universidade alemã. "Aí fica evidente que o aluno não está querendo apenas passar um tempo na Alemanha, ele tem uma motivação intrínseca, e tem uma idéia clara do que fazer, porque fazer, o que ele pode fazer pelo Brasil de inovador", explica Gabriele.

A DAAD também privilegia aqueles que demonstram já estar tentando a bolsa há algum tempo. Áreas como Engenharia, Inovação Tecnológica, Tecnologia, Economia, Filosofia, Direito, Música, Arqueologia, Meio-Ambiente e Filologia Clássica são mais valorizadas pelo programa, já que essas são especialidades das IES alemãs. "Há áreas onde é melhor estudar no Brasil, não precisa sair daqui", explica a diretora da DAAD.

Assim como o DAAD, o programa Chevening, do British Council, privilegia áreas de estudo estratégicas para o relacionamento Brasil-Reino Unido. "É importante o candidato demonstrar que sabe a importância do trabalho que quer fazer para o Brasil e no sentido de estreitar os lanços entre os dois países", explica Doris Petersen, assistente de projetos do British Council, e especialista na área de Educação. Isso não quer dizer que só seja aprovado quem busca cursos na área de Política Internacional ou Comércio Exterior. Há duas vertentes dentro do Programa Chevening: a Cooperate (de Cooperação) e a Social (ligada aos Direitos Humanos).

Durante a entrevista, é essencial que a pessoa esteja preparada para falar não só sobre si mesma, mas sobre os mais variados assuntos da atualidade. É preciso demonstrar que está antenada com a sua época. "Sei de pessoas que preencheram formulários maravilhosos, são supercompetentes, mas, no momento da entrevista ficam nervosas. Isso é negativo porque demonstra falta de autocontrole e de capacidade de se posicionar ao vivo, habilidade oral - características que valorizamos", acrescenta Doris.

"As agências de fomento querem sempre reduzir o seu risco de investimento. E o retorno, n esse tipo de investimento, não é financeiro, é formar uma pessoa que realmente vai devolver algo inovador para a sociedade, alguém que será uma liderança na sua área de atuação. É um retorno intangível, de difícil avaliação", afirma Loureiro, da Comissão Fullbright. É por isso que, durante a entrevista, é importante demonstrar comprometimento com a volta para o país de origem, ou seja, não se pode dizer que pretende ficar no exterior. "Não gostamos de notar que a pessoa quer uma oportunidade de ficar nos Estados Unidos, que o objetivo dela é, principalmente, sair do Brasil, não estudar."

Loureiro destaca ainda a importância que se dá às Cartas de Recomendação, fundamentais no processo de seleção. "Mais importante do que QUEM recomenda, ainda que seja uma pessoa prestigiosa, é que ela seja enfática sobre o candidato. Não adianta ser alguém respeitado que escreve uma carta ?morna? sobre o aluno", explica. É importante que a carta seja longa, não padronizada, que tenha sido feita exclusivamente para aquela pessoa, ressaltando todas as suas virtudes, a contribuição dela para a área.

Dicas dos campeões

Para descobrir a melhor forma de proceder durante a seleção, nada como ir atrás de gente que fez bem feito e conseguiu a bolsa. "É bom começar cedo a pesquisar e entrar em contato com esse universo - no mínimo, um ano antes de quando se pretende se inscrever para o processo seletivo", aconselha Maurício Toba, 35 anos, ex-bolsista da Fullbright em parceria com a Capes, de 2001 a 2002, para um doutorado sanduíche em Direito na Universidade de Nova York. O tema de sua tese era "Impactos da globalização sobre as administrações públicas". Hoje, Maurício é diplomata e terceiro secretário do Itamarati.

Ele, que já fazia seu doutorado na USP (Universidade de São Paulo), deu o primeiro passo marcando uma consulta no Alumni, que tem um centro de orientação para quem quer estudar nos Estados Unidos. "Você paga uma consulta e tem acesso a várias possibilidades". A partir de então, foi atrás do e-mail de professores da sua área dentro das universidades. Primeiro pedia informações para a sua pesquisa. E, uma vez familiarizado com o professor, falava da bolsa e sondava a possibilidade do docente ser seu orientador.

Maurício tentou bolsas em várias instituições paralelamente: além do Fullbright, Capes, CNPQ, Fapesp. "Mas, na hora da entrevista, nunca mencione que você está tentando a bolsa em vários lugares", alerta.

A jornalista Fabrícia Peixoto, ex-bolsista do Programa Chevening, em 2003, fez o caminho contrário do que o recomendado pelas instituições de fomento, mas se deu bem: primeiro investigou sobre todas as bolsas existentes em sua área e o perfil que elas atingiam, depois foi atrás dos cursos que se adaptavam àquelas áreas cobertas pelas bolsas.

O primeiro passo foi entrar em contato com entidades de classe na sua área. Além disso, recorreu ao Google, com as palavras-chave "scholarship" e "fellowship" + o nome da profissão (no caso dela, jornalismo). Também entrou em fóruns e listas de discussão, só como observadora, para pegar dicas. Ela foi atrás de conhecer e conversar com gente que fez e passou, para detectar o perfil das pessoas, suas virtudes, e saber melhor como proceder na hora da entrevista.

Em seguida, procurou cursos que as instituições de fomento poderiam valorizar. Achou um que se encaixava com seus interesses e com os interesses do British Council: Política Global, na Birkbeck College, em Londres.

 

Para se preparar para entrevista, leu muito sobre as tendências mundiais, da sua carreira e do mercado em geral. Assim, teve clareza sobre que estudo seria útil para o mundo. "Por exemplo: tem muita empresa multinacional querendo vir para o Brasil, um curso de Negociação, para quem é da área do Direito, seria muito bem visto pelas instituições de fomento", explica.

Fabrícia ressalta ainda que é importante pedir a ajuda de um profissional qualificado - como um professor de inglês - para ajuda-la a escrever a cover letter (carta de discrição sobre si mesma) e preencher os formulários. "Contratei uma pessoa para traduzir meu currículo e minha carta, assim me senti mais confiante".

A ex-bolsista destaca a importância dessa carta de descrição sobre si mesma. "É importante começar pelo contexto macro e depois ir para o micro na hora de explicar porque quer estudar aquele tema. Iniciar a carta destacando a importância que aquele curso teria para o cenário internacional, como seu país se encaixa naquele contexto, como a sua carreira se insere naquilo e, por fim, como a sua experiência profissional e acadêmica até o momento se insere."

Se você tiver pulado de emprego em emprego, é bom omitir isso no currículo, e só destacar os que fizeram mais diferença na sua carreira. Segundo Fabrícia, lá fora existe uma tendência de você ficar no mesmo emprego por muito tempo, pega mal ficar mudando toda hora.

Para a entrevista, Fabrícia ensaiou bastante. Pediu para uma amiga que falava inglês fluente fazer algumas perguntas-chave para ela, tais como:

1.Onde você se vê daqui a cinco anos?

2. Qual é o principal problema de seu país hoje?

3. O que você acha de seu governo atual?

4. Questões polêmicas como: você é contra ou a favor do aborto?

Segundo Fabrícia, essas são perguntas que sempre aparecem na hora da entrevista, é bom já ir com um discurso meio pronto e as idéias consolidadas, o que não exclui a importância de ser o mais autêntico e natural possível. "Eu atribuo o fato de eu ter passado porque transmiti a imagem - verdadeira - de ser uma pessoa esforçada, batalhadora, disposta a ralar. Demonstrei que tinha ambição".