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BBC News (MS)

A carnívora do Cerrado

Publicado em 01 março 2012

Não se engane com a aparência delicada. Essa pequena planta de flores roxas e galhos finos, que habita as areias brancas da Serra do Espinhaço, em Minas Gerais, e cuja altura média é de 20 centímetros tem a capacidade de atrair, capturar e digerir vermes abaixo da terra, utilizando suas folhas grudentas, que não são maiores do que a cabeça de um alfinete.

A descoberta foi descrita na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) por pesquisadores brasileiros, americanos e australianos. É resultado do projeto de iniciação científica Absorção foliar de nutrientes de presas como teste de carnivoria em Philcoxia minensis, desenvolvido pelo estudante da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Caio Pereira, com bolsa da Fapesp (Fundação de Amparo e Apoio à Pesquisa de São Paulo).

A hipótese de que a P. minensis seria uma planta carnívora foi levantada pela primeira vez em 2007 pelo botânico Peter Fritsch, da Califórnia Academy of Sciences, nos Estados Unidos. "Fritsch verificou a presença de glândulas colantes nas folhas e um grande número de vermes nematoides presos nelas", afirmou Rafael Oliveira, coordenador do estudo feito na Unicamp, à repórter Karen Toledo, da Agência Fapesp.

Seguindo os passos do norte-americano, que não havia conseguido provar que a P. minensis era capaz de digerir suas presas - o que é uma condição obrigatória para que uma planta seja considerada carnívora -, Oliveira e sua equipe criaram uma colônia de bactérias marcadas com isótopos de nitrogénio. Essas bactérias foram oferecidas como alimento aos vermes, que por sua vez foram oferecidos à planta.

Ao analisar as folhas após o experimento, os cientistas detectaram a presença dos isótopos de nitrogênio, comprovando que a planta havia digerido os vermes e absorvido seus nutrientes. "Além disso, detectamos na superfície das folhas a presença de fosfatases, enzimas que podem digerir os nematóides", contou Oliveira. Isso reforçou a hipótese de que a planta faz todo o trabalho sozinha, sem necessitar de fungos e outros microrganismos para ajudar na digestão de suas presas.

Os insetos são o prato preferido, mas também fazem parte do cardápio organismos aquáticos microscópicos, protozoários e até vertebrados. "Há um estudo recente mostrando que uma espécie de nepenthes asiática pode digerir pequenos ratos", contou Oliveira à Agência Fapesp. "E um dos poucos casos conhecidos na literatura que dão suporte a uma das duas vantagens energéticas do camivorismo: um aumento da fotossíntese devido ao aumento da concentração de nutrientes em suas folhas."