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A camisinha e o Aedes aegypti, artigo de Antônio Carlos Martins de Camargo

Publicado em 01 março 2002

Que instituições do governo do Estado de São Paulo deveriam estar incumbidas de proteger a sociedade contra a epidemia de dengue hemorrágica com crescente tendência a ser exacerbada de forma alarmante? No fim do século 19, quando no porto de Santos ocorreu um surto epidêmico de peste bubônica, o governo convocou um cientista, Adolfo Lutz, para ajudá-lo a combater essa epidemia. Esse grande cientista brasileiro criou, nos moldes do Instituto Pasteur, na França, o Instituto Butantan. Esse instituto, juntamente com o Instituto Bacteriológico (hoje Adolfo Lutz) foi criado para ser a principal trincheira da sociedade paulista no combate a doenças infecciosas epidêmicas através da pesquisa científica destinada ao desenvolvimento de soros, vacinas e outros recursos químicos preventivos ou curativos. Como essa trincheira deveria estar sendo utilizada no caso da epidemia de dengue? Da mesma forma que ocorre com a epidemia causada pelo vírus da Aids, várias estratégias foram desenvolvidas, algumas com relativo sucesso. Uma delas mudou os hábitos das relações sexuais no mundo, para prevenir a propagação da doença, por meio do uso da camisinha. Outras estratégias foram pesquisas, com maior ou menor sucesso, como por exemplo o desenvolvimento de vacinas, ainda uma promessa, e o desenvolvimento de quimioterápicos que inibem a multiplicação do vírus em nosso organismo. O emprego desse último recurso (quimioterápicos) tem sido responsável pelo prolongamento da vida de milhares de pacientes aidéticos no Brasil, graças à ação eficaz do atual ministro da Saúde. No caso da dengue, a medida equivalente à camisinha é o combate ao agente responsável pela propagação do vírus, isto é, o mosquito Aedes aegypti. Não há dúvidas que o combate ao Aedes aegypti deve ser feito de forma implacável. Entretanto há o outro elemento, qual seja, o doente de dengue, que transmite o vírus ao mosquito e sofre as consequências da doença, inclusive com risco de vida. Se perguntarmos se o Instituto Butantan está hoje preparado para exercer o papel concebido por Adolfo Lutz há mais de um século, buscando outras estratégias de atuação, seríamos forçados a responder negativamente. Faltam no instituto imunologistas, microbiologistas e infectologistas, entre tantos outros pesquisadores da área biomédica. Surpreendentemente, a comunidade científica do Estado de São Paulo se desenvolveu a tal ponto de ser capaz, por exemplo, de desvendar o genoma de uma bactéria patogênica (graças à competente atuação da Fapesp), mas não se organiza para derrotar uma epidemia que se alastra. É importante buscarmos uma explicação para a contradição de termos todo esse potencial científico e o utilizarmos tão pouco em benefício da saúde pública brasileira. É óbvio que outras pesquisas deveriam ser amplamente estimuladas. Uma delas, por exemplo, está sendo feita por uma equipe de pesquisadores do Centro de Toxinologia Aplicada no Instituto Butantan, que busca um quimioterápico equivalente ao indinavir (utilizado contra a multiplicação do vírus da Aids) para ser utilizado contra o vírus da dengue hemorrágica. Essa pesquisa, que poderia ter sido iniciada anos atrás, sob a liderança de uma pesquisadora brasileira com boa bagagem científica na área, somente agora, depois de enfrentar todo tipo de dificuldades, consegue apoio. Hoje, graças à feliz escolha feita pelo atual governador do Estado de São Paulo, um médico e cientista volta a ocupar o cargo de diretor do Instituto Butantan. Trata-se do professor Erney Plessman de Camargo, parasitologista de grande renome e competência com importantes realizações na área da saúde pública brasileira. Temos a certeza que o professor Erney retomará o caminho iniciado por Adolfo Lutz, há cerca de um século. (Folha de SP, 26/2) JC Email