Notícia

Gazeta Mercantil

A cabrita que é um laboratório

Publicado em 19 abril 1996

Por Laura Johannes - The Wall Street Journal
Grace é apenas uma cabrita de patas cambaleantes, mas tem úberes de US$ 1 milhão. Se tudo der certo, ela e suas crias vão ajudar a baixar o custo de uma nova geração de produtos farmacêuticos. A cabrita recém-nascida, de 3,6 kg, foi geneticamente alterada de modo a produzir um medicamento, na forma de uma proteína parcialmente humana, presente em seu leite. Os cientistas já desenvolveram animais transgênicos como ela em laboratórios de pesquisa, mas o nascimento de Grace, em 20 de março, marca uma das primeiras tentativas de passar a produzir fora do laboratório. Criada numa fazenda de 68 hectares na área rural de Charlton, em Massachusetts, EUA, que pertence desde o ano passado à Genzyme Transgenics Corp., Grace deverá ter lactação suficiente, até o ano que vem, para produzir 1 quilo de um medicamento experimental anticâncer para a Bristol-Myers Squibb Co., que contratou a Genzyme Transgenics para produzir Grace e outras cabritas. "Estamos operando plenamente", diz Tom Smith, gerente da fazenda, onde a equipe distribuiu charutos com fitinhas cor-de-rosa para comemorar o nascimento. Embora o verdadeiro teste só vá vir com a ordenha, Smith vislumbra, confiante, "pacientes humanos tratados com uma proteína humana produzida por uma cabra". A medida que a biotecnologia procura desenvolver produtos farmacêuticos cada vez mais complexos, os métodos tradicionais de produção deixam de ser adequados. Muitas novas drogas estão aparecendo - proteínas complexas que são difíceis de produzir em grande quantidade. E alguns remédios à base de proteína, como a antitrombina III, um anticoagulante feito de plasma humano, podem custar milhares de dólares para a dosagem a ser consumida em um só dia. Agora, em experiências que estão começando a exibir resultados promissores, os pesquisadores estão aproveitando a capacidade natural de plantas e animais de produzir proteínas. Em vez de serem fabricadas nas instalações tradicionais, muitas das drogas do futuro podem ser produzidas em lugares como milharais e fazendas de gado leiteiro. "Se pudermos fazer medicamentos com um rebanho de cabras, em vez de com toda uma nova fábrica em Syracuse (Estado de Nova York), a relação custo/benefício se elevará muito", diz Ronald Pepin, diretor externo de ciências e tecnologia da Bristol-Myers. A empresa está financiando as experiências com cabras para fazer o BR-96, um anticorpo monoclonal que fornece drogas para a quimioterapia diretamente para os tumores de mama, colo do útero e pulmões. Como muitas megaproteínas, a nova droga é produzida atualmente em células de mamíferos, que exigem nutrientes caros e precisam ser mantidas em cubas gigantescas chamadas de biorreatores. Experiências A Bristol-Myers está se empenhando em tornar esses métodos tradicionais mais eficientes. Ao mesmo tempo, suas experiências com a transgenia podem tornar as técnicas atuais obsoletas, pelo menos para alguns medicamentos. Além de usar cabras, a empresa está financiando experiências com plantas transgênicas, em colaboração com a Agracetus Inc., de Middleton, Wisconsin. As experiências com animais tomaram impulso no mês passado, quando a Bristol-Myers testou amostras do medicamento de combate ao câncer produzido em camundongos transgênicos e descobriu que elas mantiveram a capacidade da droga de detecção dos tumores. O nascimento de Grace representa outro marco histórico, porque as cabras são capazes de produzir medicamentos comerciais em quantidades muito maiores que os camundongos. A Bristol-Myers está otimista quanto à possibilidade de ter seu medicamento produzido na fazenda da Genzyme, mas diz que essa decisão dependerá da produção efetiva de Grace. A antitrombina III também é objeto da pesquisa transgênica. Esse remédio, usado nos Estados Unidos principalmente para tratar doenças hereditárias raras, custa ao paciente mais de US$ 2 mil por grama, segundo a Genzyme. A empresa acredita que o mercado do produto se expandiria se ele pudesse ser produzido - e vendido - a um preço menor. Ainda neste ano, a Genzyme vai começar a testar em seres humanos a antitrombina produzida por cabras. (As cabras que produzem a antitrombina foram desenvolvidas na Universidade Tufts e depois transferidas à fazenda da Genzyme.) "Uma das vantagens da transgenia é que existe uma oferta ilimitada do produto. Se se quer duplicar a quantidade de proteína, simplesmente duplica-se o número de animais", diz Bill Drohan, diretor do laboratório de derivados de plasma da Cruz Vermelha americana em Rockville, Maryland, que está tentando produzir um remédio para a hemofilia em porcos transgênicos. Custos Ainda é cedo para quantificar as potenciais economias da produção transgênica de medicamentos, mas a Genzyme prevê que poderá reduzir o custo para cerca de metade do que e" gasto com os métodos tradicionais. E isso sem contar com a economia nos investimentos iniciais. Apenas doze cabras seriam capazes de igualar toda a produção da nova unidade que a Genzyme Corp. inaugurou em Boston, a um custo de US$ 110 milhões, e que fabrica um medicamento para o mal de Gaucher, uma doença genética debilitante, diz o principal executivo da Genzyme Transgenics, James Geraghty. A Genzyme Transgenics é uma afiliada da Genzyme Corp., que detém 48% de seu capital. Naturalmente, uma fazenda de transgenia custa mais do que uma fazenda de gado leiteiro comum. A Genzyme Transgenics gastou US$ 6 milhões para construir sua unidade. Uma das despesas significativas foram os US$ 250 mil necessários para importar um rebanho de cabras da Nova Zelândia, onde os animais são tidos como isentos da doença "scrapie", a versão caprina da "doença da vaca louca". Somente Grace é avaliada pela Genzyme em cerca de US$ 1 milhão. O passo seguinte foi criar Grace alterando geneticamente o embrião de uma cabrita normal, um processo que exige tanto destreza quanto sorte. Acompanhando pelo microscópio, o cientista usa uma agulha ultrafina para introduzir um gene especial num embrião de cabra. O gene pode "tomar carona" no mecanismo normal de produção de leite, instruindo as glândulas mamárias a produzirem o medicamento, além do leite. Mas o procedimento de alteração do embrião é bem-sucedido em apenas 10 a 15% das vezes. De sua parte, Grace está sendo recompensada com "o melhor feno disponível na praça", diz Smith. Ela também tem um veterinário atento que realizará exames de sangue regulares, além de outros exames, para assegurar que ela viva o mais possível. Além de produzir leite, a tarefa de Grace exigirá que ela se acasale normalmente. Segundo as estatísticas da genética, metade de seus filhotes deverá produzir a droga.