Notícia

A Tribuna (Santos, SP)

A briga pelas patentes

Publicado em 13 maio 2002

A natureza é pródiga em oferecer substâncias essenciais em vários tratamentos médicos. É o caso, por exemplo, da guaçatonga (Casearia sylvestris), uma árvore comum do Sul ao Norte do Brasil. Qual não foi a surpresa dos pesquisadores da Unesp, que estudavam a espécie, ao tentarem patentear uma substância antitumoral encontrada na árvore: japoneses já haviam solicitado a patente em 1998. O patenteamento assegura os direitos do inventor sobre as aplicações industriais e cria obstáculos para o desenvolvimento de pesquisas futuras. Esse é somente mais um dos casos em que plantas brasileiras têm a sua patente requerida no exterior. Por essa razão, os cientistas decidiram não demorar mais para patentear os compostos químicos cuja ação biológica se mostre interessante em laboratório. Para evitar novas surpresas, pesquisadores da Unesp decidiram se proteger e pediram o patenteamento de duas substâncias que agem contra o mal de Chagas. Essas substâncias foram isoladas de duas espécies, uma da Amazônia e de a outra aqui da Mata Atlântica de São Paulo. Outras duas devem seguir o mesmo caminho, tão logo os ensaios adicionais confirmem a potente atividade antimicrobiana que podem apresentar. TODO CUIDADO É POUCO. Como se não existisse nenhum, aí vai mais um forte argumento para reforçar a enorme e urgente necessidade de se proteger os parcos remanescentes de Mata Atlântica (foto) e Cerrado paulista. São as árvores, algumas com até 25 metros de altura, verdadeiras fontes de substâncias. No laboratório, elas se transformam em medicamentos mais baratos. Algumas têm funções antibióticas, empregadas em problemas como desordens nervosas. Outras entram por um dos segmentos mais lucrativos da indústria farmacêutica: os radicais livres. Elas estão nessas duas áreas do Estado, junto a centenas de outras plantas que os cientistas ainda nem conhecem. Curiosamente, uma dessas plantas é a peroba (Aspidosperma olivaceum), também chamada de guatambu. Outra é a casca-de-anta ou jasmim-grado (Rauvolfia sellowii). A peroba, por exemplo, sempre foi valorizada pela sua madeira, empregada em dormentes, moirões, construção naval e obras em geral. Essas descobertas são fruto do Biota-Fapesp, um trabalho que envolve centenas de cientistas, visando mapear a biodiversidade, a enorme riqueza da flora e fauna do Estado. Nesse caso, o mérito coube a 45 pesquisadores. Eles selecionaram 229 extratos de plantas, que resultou na descoberta de seis espécies com ação antibiótica. Na Mata Atlântica foram analisadas 102 espécies. Destas, oito - cujos nomes permanecem bem guardados - apresentaram alguma ação antioxidante, antitumoral ou antichagásica. As antioxidantes despertam um particular interesse. Eles agem sobre os chamados radicais livres, que produzem a morte celular.