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A brasileira que pode ajudar a Nasa a descobrir a origem da Terra

Publicado em 12 março 2017

Por Marina Demartini

São Paulo – Mello tinha 16 anos quando colocou os pés pela primeira vez no Observatório do Valongo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A ideia era responder a uma pergunta que rondava a cabeça de sua mãe: o que é astronomia? Quase 40 anos depois e um pós-doutorado no Chile, a carioca sabe dizer como ninguém o que é ser astrônoma.

Duilia de Mello é pesquisadora associada do Centro de Voo Espacial Goddard da Nasa e vice-reitora da Universidade Católica de Washington D.C., nos EUA. Ela é conhecida no meio científico por ter descoberto a supernova SN1997D e as bolhas azuis, estrelas que vivem fora das galáxias.

A primeira conquista de Mello, no entanto, não foi o reconhecimento de seus pares, mas de seus pais. “Foi muito complicado quando escolhi ser astrônoma”, conta a cientista em entrevista a EXAME.com. “Minha mãe não sabia o que era astronomia e me perguntava como eu ia arrumar emprego nessa profissão.”

A resposta para esse questionamento veio da própria mãe de Mello. Ela decidiu levar a filha até o departamento de astronomia da UFRJ, localizado no centro da capital fluminense, para tentar entender a profissão. “Até hoje não sei como ela conseguiu encontrar o curso. Nós morávamos no subúrbio e não existia Google naquela época.”, brinca a astrônoma.

Mello conta que foi devido a longa jornada ao campus que sua mãe e ela tiveram a primeira conquista de suas vidas. “Quando chegamos lá (na UFRJ), eu consegui convencê-la de que se os professores tinham um emprego, por que eu também não poderia ter um?”

Desde então, Mello não parou. Logo após se formar em astronomia pela UFRJ, ela fez mestrado no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Seu doutorado foi feito parte no Brasil, na Universidade de São Paulo (USP), e parte nos EUA, na Universidade do Alabama.

“Eu defendi a minha tese no dia 10 de fevereiro de 1995 e no dia 12 de fevereiro eu embarquei para o Chile com um bolsa da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) para fazer pós-doutorado”, conta Mello.

Era para a astrônoma ficar três anos no Observatório Interamericano de Cerro Tololo, no Chile. Contudo, dois anos depois, ela estava de volta ao Brasil. O motivo era a conquista de uma bolsa de recém-doutor no Observatório Nacional.

“De volta para a minha terra”

O que Mello não esperava era que o retorno ao Brasil faria uma reviravolta na sua vida. Na época, entre o final de 1996 e o início de 1997, o país era comandado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso. Devido ao pacote fiscal do governo, os programas do Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq) tiveram seus orçamentos reduzidos em 10%. As áreas afetadas foram as bolsas, especialmente as de iniciação científica e de especialização.

“Os cortes foram tão absurdos que fazem com que os cortes que presenciamos hoje pareçam bem menores”, lembra a astrônoma. Ela conta que recebeu uma carta do governo que informava que sua bolsa de três anos seria cortada e que ela tinha duas opções: um ano e meio de bolsa ou receber três anos na metade do valor. “Eu cortei a carta em mil pedaços.”

Mello não perdeu tempo e começou a disparar e-mails para todos os pesquisadores que já havia conhecido. Uma das pessoas que a respondeu foi um astrônomo do Instituto do Hubble. “Eu já tinha enviado um currículo para ele anos atrás, mas ele não quis me contratar”, diz. A história dessa vez, porém, foi bem diferente. “Falei no e-mail que estava no mercado do trabalho e pronta para voltar aos EUA. Ele me ligou e me contratou na hora.”

A ida de Mello aos Estados Unidos aconteceu em 1997, há quase 20 anos. A cientista nunca mais voltou ao Brasil para trabalhar, porém admite que já teve vontade de retornar. “Fiz um concurso para ser diretora do Observatório Nacional, mas não passei”, diz. “No entanto, foi aí que eu percebi que não poderia voltar ao meu país, pois no Brasil não se contrata professor titular que fez toda a sua carreira no exterior.”

Hubble e James Webb

Depois de trabalhar durante anos com o Hubble, o próximo passo de Mello é explorar o espaço com o James Webb. O telescópio promete ser lançado em 2018 e, segundo a cientista, não tem a finalidade de substituir o Hubble. “O Webb é um telescópio muito maior, com 6,5 metros, enquanto o Hubble tem apenas 2,5 metros”, explica. “Além disso, ele é infravermelho.”

O fato de o novo aparelho usar o infravermelho está relacionado à necessidade que os cientistas têm de observar objetos mais distantes. “Como o universo está em expansão, a luz começa a se deslocar para o vermelho dependendo da distância”, conta. “Por isso, é preciso usar um detector infravermelho. Nós queremos ver lugares a 12 bilhões de anos-luz e isso só seria possível com o Webb.”

Ela ainda adiciona que o telescópio é necessário para que os cientistas possam explorar as origens do nosso sistema solar e da Terra. “Ele vai nos ajudar a entender como o nosso planeta foi formado e por que ele está localizado no sistema solar”, diz. “A localização é importante, pois a Terra está na zona habitável. Mas, nós também queremos ver como existe essa formação de planetas ao redor de outras estrelas que não são o nosso Sol.”

Marte e ETs

Mello se mostra esperançosa na maioria dos assuntos relacionados à exploração do espaço. No entanto, quando o tema é Marte, a cientista brasileira muda o tom. Para ela, os seres humanos ainda levarão muitos anos para chegar ao planeta vermelho. “Iremos explorar o astro, porém não acredito que iremos morar lá tão cedo.”

Segundo a cientista, há um aspecto que as pessoas se esquecem quando falam de colonização em outros planetas: radiação. “O astronauta até consegue voltar à Terra após uma viagem à Marte. Porém, ele irá voltar com câncer devido à quantidade de radiação que seu corpo irá receber.”

Outro tópico que deixa a astrônoma “com um pé atrás” é vida extraterrestre. “Não existe o porquê de sermos únicos no universo. Mas, procuramos e não achamos nada de orgânico no nosso sistema ainda.”

De acordo com Mello, ela quer acreditar que exista vida inteligente fora da Terra. No entanto, não acredita que irá acontecer qualquer tipo de contato. “Isso é pouco provável devido às distâncias e pelo fato de as civilizações passarem por processos de evolução diferentes”, explica. “Mas, não é impossível. Afinal, nada aponta que nós somos únicos no universo e iguais a outros tipos de vida.”

Exame.com