Notícia

Secretaria de Ensino Superior (SP)

A "bomba" que atinge o coração de jovens

Publicado em 23 setembro 2008

Por Luiz Paulo Juttel

Quem hoje em dia não conhece pelo menos um amigo ou colega que "explodiu" em músculos de uma hora para outra? Em seis meses essa pessoa, em geral jovem, salta de míseros 55 kg para 80 kg ou mais de pura massa muscular. A antiga camiseta de banda de rock cede espaço à regata ou baby look. Em academias ou em raves há chance de encontrá-lo exibindo seus músculos hipertrofiados. Embora muitas vezes a família nem desconfie, quem convive com esses jovens logo identifica a causa de tantas mudanças físicas e comportamentais repentinas. Seu nome: esteróides anabolizantes.

Estudar as relações de causa e efeito do uso de anabolizantes em alta dosagem é a tarefa a que vem se dedicando a equipe da bióloga Fernanda Klein Marcondes, professora de Fisiologia da Faculdade de Odontologia de Piracicaba (FOP) da UNICAMP. A literatura médica há bastante tempo tem associado os esteróides a uma série de malefícios que acometem seus usuários. Entretanto, para se estabelecer uma relação desses efeitos com suas respectivas causas é preciso considerar todo um contexto: hábitos de vida, a rotina de treinamento físico intenso e o uso simultâneo de vários anabolizantes e de suplementos alimentares, entre outros fatores.

"Por força desse contexto é que os nossos estudos controlados foram feitos em ratos de laboratório. Apenas dessa maneira é que se pode dizer que certa substância em dosagem x causa o efeito y. Só assim é possível, também, esclarecer os mecanismos que causam esse efeito e as formas de evitá-lo ou até mesmo revertê-lo", observa a docente. Sem contar o problema ético da realização desse tipo de pesquisa em humanos. "Seria inaceitável, do ponto de vista ético, convocar voluntários humanos saudáveis para um estudo em que eles recebessem hormônios, como é o caso dos anabolizantes. A administração de hormônios somente deve ocorrer em casos de patologia, e com acompanhamento médico".

Financiada pela Fapesp, a pesquisa de Marcondes teve início em 2002 e contou com a colaboração de pesquisadores da PUC-Campinas, da UFSCar e da área de Histologia da FOP. Seu objetivo era analisar os efeitos cardiovasculares, metabólicos e comportamentais que o anabolizante mais usado no Brasil e no mundo, o decanoato de nandrolona (conhecido pelo nome comercial Deca-durabolin), causa nos indivíduos.

Para a análise cardiovascular, que foi a que apresentou os resultados mais alarmantes à saúde, a metodologia de pesquisa da equipe da FOP se deu da seguinte forma. Espécimes masculinos da raça Wistar com dois meses de idade foram separados em quatro grupos. O primeiro era o dos que não passaram pelo treinamento de força e foram tratados com placebo (não ingeriram anabolizante). No segundo estavam os não-treinados que receberam a nandrolona. O terceiro continha os que foram tratados com nandrolona e não treinaram e, no último, os treinados e tratados com anabolizante.

A quantidade de decanoato de nandrolona utilizada foi de 5 mg por kg do animal, duas vezes por semana, durante seis semanas. Isso equivale a uma dosagem em humano de cerca de 800 mg por semana. Trata-se de uma super dosagem. Em conversa com usuários veteranos de anabolizante e em fóruns sobre o tema na internet, constata-se que a média semanal de aplicação é 200 mg, em ciclos que vão de dois a quatros meses. No entanto, essa substância geralmente é usada em conjunto com um preparado de quatro ésteres de testosterona, chamado comercialmente de Durateston, cujo consumo fica na casa de 500 mg por semana.

O treinamento de força a que foram submetidos os animais foi realizado em um tanque com 38 cm de altura de água a uma temperatura de 300 C (ideal para atividade física na água). Nas costas dos ratos se colocou um colete que pesava entre 50% e 70% do peso corpóreo. Esse colete fazia com que o animal afundasse na água e precisasse saltar para respirar. A cada 10 saltos ele era retirado do tanque para descansar por um minuto. O procedimento era repetido quatro vezes ao dia. O quinto e sexto dias eram de descanso.

"Sabemos que o correto seria um dia de treino para um ou dois dias de descanso. No entanto, não é isso que fazem os usuários de esteróides anabolizantes. Nós queríamos reproduzir um ambiente semelhante ao que se vê nas academias. Por isso foi feito treinamento de alta intensidade, com menor período de descanso", diz a pesquisadora.

Efeitos

Os resultados dessa pesquisa mostraram que o volume do coração dos membros de todos os grupos, menos o dos sedentários que não receberam anabolizante, sofreu um aumento concêntrico (de fora para dentro). Isso significa que as paredes das cavidades cardíacas ficaram mais espessas, e seu diâmetro interno menor. Isso faz com que seja menor o espaço para a entrada de sangue a ser bombeado pelo coração.

Esse efeito causado pelo fisiculturismo já é conhecido pela comunidade científica. "Só que dentro de alguns limites isso não causa prejuízo à função cardíaca porque, a princípio, é compensado por um aumento de força do coração", afirma Fernanda. Porém, nos animais em que houve associação do uso de anabolizante ao treinamento intenso, a hipertrofia foi acompanhada por uma deficiência no bombeamento cardíaco.

Essa conclusão se deu depois que os grupos de animais pesquisados passaram por um exame chamado ecodopplercardiograma, em estudo feito juntamente com a professora Maria Claudia Irigoyen, do Incor/USP. Semelhante ao ultra-som, o ecodoppler cria uma imagem do coração e do seu funcionamento no qual é possível fazer medidas do coração e analisar o fluxo de sangue durante o seu funcionamento.

No grupo treinado com anabolizante não se teve apenas um aumento de massa muscular, mas também de fibras de colágeno (tecido conjuntivo). Enquanto o grupo treinado sem nandrolona ficou com o nível de colágeno estabilizado em 3µm2, o treinado com nandrolona saltou para 33µm2. "Essas fibras fazem parte da estrutura do coração, mas não participam do bombeamento de sangue. Tem-se um coração maior, mas não mais eficiente. Ao contrário, há maior resistência a esse bombeamento", completa a bióloga.

Na literatura médica existem vários estudos de caso que relatam mortes súbitas de fisiculturistas usuários de anabolizantes relacionadas a esse aumento concêntrico do coração. "O que a nossa pesquisa mostra agora é que, com certeza, uma parcela disso se deve ao anabolizante, e outra ao treinamento intenso de força; as duas coisas juntas amplificam os efeitos. A relação causa e efeito está bem-estabelecida e confirmada pelo experimento", alega Fernanda.

O trabalho da professora analisou não apenas o coração, mas também o sistema vascular por onde o sangue circula dentro do corpo. Os pesquisadores da Unicamp queriam saber se o uso de anabolizante alteraria a capacidade do vaso sangüíneo se dilatar ou passar por contração conforme a necessidade do organismo. Essa função dilatadora é extremamente importante para manter a pressão sangüínea e a temperatura corpórea regulada diante de movimentos do corpo ou de alterações da temperatura do ambiente, assim como para fazer o sangue chegar a todos os tecidos corpóreos.

Para isso foi avaliada, in vitro, a resposta da aorta torácica a uma substância que causa a contração automática do vaso sangüíneo. Percebeu-se, então, que os grupos que passaram pelo treinamento físico de força diminuíram a resposta a essa substância vasoconstritora. A contração do vaso ficou menor. A docente observa que esse é um efeito benéfico do exercício físico, pois evita que a pressão arterial aumente demais enquanto se pratica a atividade.

No entanto, o grupo que foi treinado e tratado com anabolizante teve esse efeito benéfico bloqueado pelo esteróide. Além disso, o anabolizante associado ao treino também diminuiu a produção de óxido nítrico na aorta. Essa substância trabalha na dilatação dos vasos. Segundo Fernanda, a diminuição de óxido nítrico está relacionada ao aumento de colesterol LDL (colesterol ruim) encontrado no sangue dos membros desse grupo. Essa situação pode levar, também, ao crescimento no número de placas de gordura no vaso. Um melhor conhecimento do processo de influência do decanoato de nandrolona sobre a formação de placas de gordura nos vasos sangüíneos é o que se espera obter com um estudo que a equipe da Unicamp deve concluir até o final de 2009.

Principais efeitos associados ao uso de anabolizantes em homens:

Acne*

Agressividade

Inibição da produção de testosterona

Diminuição do desejo sexual (libido)

Impotência e esterilidade

Ginecomastia – crescimento das mamas

Problemas hepáticos – chegando ao desenvolvimento de tumor

Menor crescimento em adolescentes

Colesterol Alto

Calvície

*Alguns efeitos são temporários, enquanto outros não desaparecem depois de encerrado o consumo do anabolizante

Do Jornal da Unicamp