Notícia

Cruzeiro do Sul

A biomedicina também é coisa nossa

Publicado em 15 agosto 2018

Inovar não significa apenas inventar algo que ainda não existe. Viabilizar a produção local de itens que hoje são importados, ainda mais se o assunto é saúde, é inovador — transformador.

Há 20 anos, uma equipe chefiada pela doutora em química Eliana Duek, estuda os polímeros bioabsorvíveis no Laboratório de Biomateriais, instalado no campus de Sorocaba da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP). Há quatro anos, uma extensão desse laboratório foi instalada no Parque Tecnológico de Sorocaba (PTS). E neles já foram desenvolvidas membranas para tratamento de queimados, placas, parafusos e próteses de menisco a partir de um tipo de plástico específico para uso médico — itens que, atualmente, estão em negociação com indústrias para produção em escala.

“A área de biomateriais no Brasil ainda é muito nova. Apenas recentemente começam a aparecer empresas dispostas a investir. A ideia foi trazer o conhecimento de degradação de polímeros para a área médica”, diz a pesquisadora, pioneira no processo na década de 90. “As primeiras amostras comprei com verba minha. Um amigo trouxe dos Estados Unidos cem gramas de polímero. Comecei a trabalhar e depois a sintetizar.” “São produtos que já existem, mas são importados.

Nosso processo, porém, é muito mais barato, o que ajudaria o Sistema Único de Saúde (SUS), por exemplo, numa redução de gastos”, explica o químico Daniel Komatsu, que trabalha no laboratório. As membranas são usadas para tratamento de vítimas de queimaduras, como uma espécie de curativo, que auxilia na proteção e na cicatrização e pode conter, inclusive, no próprio plástico, materiais que auxiliem esse processo. “É possível impregnar o que quiser nele, um anti-inflamatório, um antibiótico e, à medida que o polímero vai degradando, isso vai sendo liberado”, explica Eliana Duek. Segundo a pesquisadora, as membranas existentes no mercado, importadas, têm um custo cerca de 230% maior.

Bactérias denunciam infecções e salvam vidas

Placas e parafusos de polímeros podem substituir peças metálicas, em partes do corpo onde não há necessidade da firmeza que o metal proporciona — como no caso de fraturas na face, por exemplo. “É um material implantado no paciente e que, depois de certo tempo, é absorvido pelo corpo.

Isso elimina uma nova cirurgia para a retirada”, destaca Komatsu. O nível de detalhamento das pesquisas é tanto que cada polímero é desenvolvido para durar exatamente o tempo necessário para a recuperação um determinado tipo de lesão, se degradando e sendo absorvido pelo corpo, sem prejuízo à saúde. “Essa parte de pesquisa de materiais é uma área importante para o País, pois traz tecnologia e desenvolve a indústria nacional”, completa Komatsu. “Têm aparecido empresas dispostas, mas é um processo demorado. Esses polímeros não constavam nem da lista da Anvisa há alguns anos”, completa Eliana. Um terceiro projeto criado em Sorocaba, no laboratório da PUC, e pronto para ir ao mercado, é a prótese de menisco.

“A prótese com o polímero nós já fizemos. Agora, há outra, na qual retiramos células de uma parte saudável do menisco, e cultivamos em um arcabouço no formato do menisco do próprio paciente, e, que, depois é implantado nele. Esse tecido amortece e poderá prolongar a vida útil dessa peça”, explica a pesquisadora. Para Eliana — que vem dedicando boa parte de sua vida na busca dessas inovações que podem revolucionar e ampliar, em qualidade e quantidade, os biomateriais utilizados pelo SUS, a chave de todo esse processo é gostar e não ser egoísta. “É um trabalho que não tem fim. Você vai para casa com isso na cabeça, acorda com isso na cabeça. Quando termina, surgem outras muitas questões para resolver. É preciso gostar de fazer isso e saber compartilhar suas ideias.” Detecção de bactérias por hidrogel As doenças infecciosas, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), matam de 17 a 20 milhões de pessoas anualmente, no mundo. Desse total, cerca de 10 milhões adquirem infecção hospitalar (IH); desses, quase 300 mil morrem. Coordenado pelo professor Victor Manuel Cardoso Figueiredo Balcão, o grupo de pesquisa do curso de Farmácia, da Universidade de Sorocaba (Uniso), desenvolveu o PneumoPhageColor, um kit de baixo custo para diagnóstico rápido de bactérias, de elevada precisão, com base no uso de um hidrogel sensível a alterações de cor. Há um ano e meio os estudos tiveram início com auxílio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp); segundo Balcão, a ideia por trás do PneumoPhageColor traz uma abordagem altamente criativa.

Fungos saborosos, que limpam águas e curam doenças

Trata-se de juntar um bacteriófago — que ataca bactérias — e uma bactéria, para detectar a própria. Usando um bacteriófago reproduzido em laboratório e uma cepa de pseudomonas aeruginosa (bactéria) também de laboratório, proveniente de feridas humanas, “é possível detectar a infecção”, explica.

As infecções hospitalares, destaca o professor, aumentam o tempo de permanência dos pacientes e os custos de tratamento, além de contribuírem para o aparecimento de novas doenças e para a mortalidade de pacientes. No Brasil, a preponderância exata dessas infecções ainda é desconhecida; entretanto, um levantamento realizado pelo Ministério da Saúde revelou, nas diversas instituições avaliadas, uma taxa de IH variando de 13% a 15%. Balcão explica que entre os microrganismos causadores de IHs destaca-se justamente a pseudomonas aeruginosa multirresistente, uma grande ameaça. Essa bactéria é o agente infeccioso mais isolado em pacientes com pneumonia hospitalar, em casos de infecções urinárias, de ferida cirúrgica e queimados; também está presente em infecções da corrente sanguínea.

A pseudomonas aeruginosa ganhou destaque na mídia há quase dez anos, relembra Balcão, devido à morte em 2009 da modelo Mariana Bridi. A morte foi decorrência de complicações de uma infecção generalizada gravíssima, que teve como foco uma infecção urinária. A interação entre bacteriófagos e bactérias é antiquíssima, com cerca de 3,5 bilhões de anos, iniciada quando bactérias e bacteriófagos estabeleceram um equilíbrio presa-predador. Os bacteriófagos são os organismos mais abundantes no planeta, sendo seguros para todos os organismos, incluindo os humanos. A exceção é sua bactéria-alvo. “É um método seguro de teste e é preciso lembrar que, nos hospitais brasileiros, a pseudomonas aeruginosa foi responsável por 10% de todas as IH”, ressalta Balcão.

O teste é preciso, de acordo com o pesquisador, por conta da intensidade da coloração produzida no hidrogel, que aponta a carga bacteriana presente. Esta intensidade é medida através de um sensor ótico acoplado a um transdutor de sinal. Embora os estudos tenham sido iniciados há mais de 18 meses e apontem a eficácia do sistema, Balcão acredita que até ele ser usado dentro de hospitais serão necessários pelo menos cerca de dez anos. “É muito burocrático realizar os testes, conseguir certificados e aprovações; até que o PneumoPhageColor possa ser utilizado levará muito tempo.” Cogumelos, gostosos e úteis Os cogumelos não são apenas saborosos - muitos deles trazem diversos benefícios à saúde, em casos de diabetes, e podem ter outras utilidades. Algumas variedades comestíveis têm subprodutos, como os talos, que podem ser usados para purificar água contaminada. Pesquisas desenvolvidas com apoio das agências de fomento como a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) apontaram que as propriedades nutricionais dos cogumelos também reduzem os danos do diabetes gestacional.