Notícia

Jornal da USP online

A biodiversidade brasileira

Publicado em 17 agosto 2015

Por Claudia Costa

Localizada em frente à Ilhabela e vizinha de São Sebastião, a Baía do Araçá é uma região que vive há séculos sob o impacto da ação humana, com uma lista de interferências no meio ambiente que vai de vazamentos de óleo a alterações na própria linha da costa – o Porto de São Sebastião e o Terminal Marítimo Almirante Barroso (Tebar), um dos mais importantes terminais petrolíferos do Brasil – e a poluição urbana, com o descarte do esgoto doméstico não-tratado. Mas mesmo com tantas adversidades a Baía revela uma biodiversidade que abriga mais de 1.300 espécies de seres vivos, 34 delas novas para a ciência e outras nove ameaçadas de extinção. Os dados são resultado de um estudo do Projeto Temático Biota/Fapesp-Araçá, que envolveu cerca de 170 pesquisadores de mais de 30 instituições de ensino e pesquisa do Brasil e de outros países, entre elas a USP, Unicamp e Unesp, e que agora sai em livro, Vida na Baía do Araçá: biodiversidade e importância.

O objetivo do projeto é estudar o funcionamento em termos sistêmicos – levando em conta os processos físicos, biológicos e sociais – da Baía do Araçá. “Em 2011, foi dito que a Baía do Araçá estava morta. Isso nos impulsionou a estudá-la e constatar que a cada dia ela está mais viva”, afirma Antônia Cecília Zacagnini Amaral, professora do Instituto de Biologia (IB) da Unicamp e coordenadora do projeto. Segundo ela, apesar de pequena, com uma área de cerca de 500 mil metros quadrados, a Baía do Araçá apresenta uma alta diversidade biológica. Com base na análise de apenas 60% do material coletado durante o projeto – iniciado em 2012 e com término previsto para este ano –, os pesquisadores já identificaram mais de 1,3 mil táxons (tipos de organismos) na baía e região adjacente – entre eles, uma nova família, cinco gêneros e 30 espécies de animais bentônicos (que vivem incrustados em substratos, como rochas e algas).

Importante reduto de pescadores, que utilizam pequenas canoas para pesca e transporte, a baía, segundo a pesquisadora, tem uma planície de maré extensa, que avança para dentro do canal, e também possui costão, praia, sublitoral, sendo um dos últimos remanescentes de manguezal entre Bertioga e Ubatuba. “Todos esses ambientes estão sendo estudados durante o projeto”, diz. Ao longo de três anos de desenvolvimento, o projeto gerou mais informações sobre a Baía do que os estudos realizados na região entre as décadas de 1950 e 2010 – nesses mais de 50 anos de pesquisa, tinham sido descritas pouco mais de 700 espécies no Araçá, sendo 34 espécies novas e nove ameaçadas de extinção. “O número de espécies que identificamos durante o projeto, que inclui peixes, aves e plânctons, é muito significativo e deve aumentar porque as análises estão em andamento”, diz.

“O projeto de pesquisa sobre a baía do Araçá sintetiza as diferentes vertentes do programa Biota/Fapesp, que inclui produção acadêmica, formação e treinamento de mestres e doutores, tradução dos resultados dos projetos apoiados para a sociedade e a utilização desses resultados para o aperfeiçoamento de políticas públicas”, informa Carlos Joly, professor da Unicamp e coordenador do programa. Em suas cem páginas, fartamente ilustradas, a obra foi produzida a partir de um processo gráfico e editorial inovador, que tem como objetivo facilitar a compreensão de um conteúdo científico. Dirigida, principalmente, a membros e pescadores da comunidade local, representantes de órgãos governamentais e não-governamentais, pesquisadores de áreas diversas, gestores de empresas privadas e formadores de opinião, tem como proposta não só informar sobre a biodiversidade da Baía do Araçá como alertar sobre a necessidade de preservá-la. Com tiragem inicial de mil exemplares, e distribuição gratuita, também será disponibilizado em versão on-line. A iniciativa da produção de uma publicação acessível é da jornalista Alice Giraldi e do biólogo Gabriel Monteiro, ambos com especialização em jornalismo científico pelo Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Unicamp, também coordenadores do projeto Biota/Fapesp e da recém-criada Ciência Pública, uma agência de comunicação científica.

Vida na Baía do Araçá: Diversidade e importância (Projeto Biota/Fapesp, 100 págs., distribuição gratuita) é organizado por Antônia Cecília Zacagnini Amaral, Alexander Turra, Aurea Maria Ciotti, Carmen Lúcia Del Bianco Rossi Wongtschowski e Yara Schaeffer-Novelli. Também foi lançado em formato e-book o livro Protocolos para o Monitoramento de Habitats Bentônicos Costeiros, que apresenta propostas metodológicas para o monitoramento contínuo a longo prazo de hábitats de organismos.