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Nexo Jornal

A bactéria que apavora agricultores dos países do Mediterrâneo

Publicado em 09 julho 2018

Uma nova tecnologia está permitindo a detecção antecipada de umas das bactérias de plantas mais temidas do mundo. Responsável por várias doenças que têm impacto na agricultura e em áreas florestais, a Xylella fastidiosa pode agora ser percebida por novas câmeras com sensibilidade aguçada para mudanças de coloração em folhas.

Com captura de imagens de plantações feita do ar, pesquisadores de um centro de pesquisa da Comissão Europeia conseguiram precisão de mais de 80% em oliveiras analisadas em áreas de cultivo na Itália. De ação silenciosa, a bactéria é responsável por um surto no país ocorrido nos últimos anos e conhecido como Declínio Rápido da Oliveira.

O registro de casos da bactéria também na França e na Espanha vem preocupando autoridades sanitárias e fazendeiros, pois há risco de contaminação de largas áreas da agricultura mediterrânea, incluindo as oliveiras espanholas, que fazem do país ibérico o maior produtor mundial de azeitonas.

A perspectiva é que os bons resultados com as oliveiras possam ser aplicados a outros tipos de cultivo.

Apelidado de “Ebola das oliveiras”, o patógeno Xylella fastidiosa apresenta riscos para cerca de 350 espécies diferentes de plantas, de laranjeiras e amendoeiras a carvalhos e ulmeiros. Ele é transmitido por insetos e contribui para o desenvolvimento de diferentes doenças conforme a planta, como a doença de Pierce, na videira, e a praga do amarelinho em citros. Não há cura para as doenças decorrentes da bactéria.

Apesar de limitada às Américas por muito tempo, os últimos anos registraram casos na Ásia e Europa. Especialistas acreditam que a bactéria está aumentando seu alcance. No Brasil, o primeiro caso comprovado de praga do amarelinho data de 1987, quando foi detectada em laranjais. Sua aparição na Europa foi reportada pela primeira vez em outubro de 2013, em oliveiras na região de Apúlia, sul da Itália. Também já foram reportadas ocorrências em plantações de oliva em São Paulo e Minas Gerais.

“A Xylella pode infectar um número muito grande de espécies de planta, incluindo cerejeiras, ameixeiras, lavanda e alecrim”, declarou o botânico inglês Richard Buggs, do Jardim Botânico Real, em Londres, ao jornal The Guardian. “Quando você comprar uma planta viva para sua casa ou jardim, certifique-se de onde ela vem.”

A bactéria se desenvolve de maneira lenta. Seus sintomas demoram a se manifestar muitas vezes. Quando aparecem, geralmente já é muito tarde para salvar a planta. É comum que muitas áreas de cultivo estejam infectadas, mas aparentem normalidade. Com isso, a erradicação se torna tarefa muito complicada.

A sequência genômica da Xylella fastidiosa foi conseguida em 2000 graças ao trabalho conjunto de 30 laboratórios de pesquisa, com financiamento da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Foi o maior projeto científico realizado no Brasil até então.

Atualmente, a Fapesp vem realizando pesquisas conjuntas com profissionais europeus visando a contenção da Xylella fastidiosa.

Mais de 7 mil oliveiras em 15 plantações italianas foram analisadas por cerca de dois anos. A observação foi realizada no solo, árvore a árvore, e do alto. O estrago da bactéria na fotossíntese e na transpiração de cada planta também foi avaliado.

Um avião equipado com câmera sobrevoou as plantações italianas a uma altura de 500 metros. A mesma tarefa poderá ser feita por drones no futuro, a um custo bem menor.

A captura de imagem “hiperespectral” é capaz de obter o espectro de cores de cada pixel de uma cena. Enquanto o olho humano enxerga basicamente três bandas de cor, câmeras hiperespectrais conseguem ver muito mais. Cerca de 250 bandas de luz, da visível à infravermelha, foram monitoradas no estudo. Com isso, as mudanças de coloração na folhagem, indicando contaminação, podiam ser detectadas em um estágio inicial.

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