Notícia

A Tribuna (Santos, SP)

A aventura de von Martius

Publicado em 13 março 2006

Brasil lança o primeiro Atlas vegetal por biomas do País

Julho, 1817, porto do Rio de Janeiro. Em meio a uma comitiva de representantes do governo austríaco, que veio ao Brasil para selar o casamento de D. Pedro com a arquiduquesa Leopoldina, chegou um jovem médico e botânico alemão. Então com 23 anos, Carl Friedrich Philipp von Martius  empreenderia uma das mais lendárias expedições científicas já realizadas no continente.
Graças ao seu pioneiro trabalho, ele deixou para a posteridade uma obra inigualável, formada por 15 volumes, em que descreveu plantas, animais e o modo de vida brasileiros do início do século 19. O último volume de sua 'Flora Brasiliensis' só foi publicado em 1906, muitos anos após a sua morte, em 1868.
Era de se esperar que passados 100 anos desse lançamento, 189 anos depois da chegada de von Martius ao País, o Brasil já possuísse um levantamento pormenorizado da sua riqueza botânica, avaliada como uma das mais importantes do Planeta. Entretanto, a realidade não seguiu a lógica.

Atlas vegetal
Na Caatinga, por exemplo, o último levantamento parcial foi realizado há 15 anos. Para o Cerrado há apenas estudos esparsos, feitos em alguns estados, mas sem dados gerais. Mesmo nas áreas mais documentadas, como a Amazônia e a Mata Atlântica, os mapas não são abrangentes e utilizam métodos diferentes, dificultando a fiscalização.
Na próxima semana, essa secular lacuna será finalmente preenchida. Após dois anos de análises, o Ministério do Meio Ambiente (MMA) lançará um levantamento detalhado dos remanescentes da cobertura vegetal em cada um de seus seis biomas: Amazônia, Mata Atlântica, Cerrado, Caatinga, Pantanal e Campos Sulinos.
O trabalho, inédito, contará com atlas, mapas gerais e regionais e uma base de dados sobre a cobertura vegetal. A maior quantidade de dados é sobre a Amazônia e a Mata Atlântica, os únicos com programas permanentes de monitoramento da evolução da cobertura vegetal.
O gerente de Conservação da Biodiversidade do MMA, Bráulio Dias, informa que o trabalho trará novidades até mesmo sobre a Amazônia, que conta com uma análise anual do desmatamento, mas que mapeia apenas a perda de floresta densa.
"O levantamento irá mostrar as modificações também em áreas de cerrado da Amazônia, nos campos de lavradio e nas campinas, ecossistemas típicos da região, mas que não são alvo do monitoramento", explica Dias.

Bate-boca
Além de permitir uma maior capacidade de proteção a esse imenso recurso, do qual se originam pesquisas e produtos com aplicações que vão da medicina à eletrônica, o novo atlas da biodiversidade vegetal brasileira também permitirá um acompanhamento mais acurado sobre onde estão sendo praticados os principais crimes ambientais. Hoje, esses dados não batem, e acabam se transformando em acirrados bate-bocas internacionais.
Na semana passada, por exemplo, quando da visita do presidente Lula à Inglaterra, o Greenpeace fez um protesto em Londres em que afirmava que o desmatamento anual nos municípios de Belterra e Santarém, no Amazonas, pulou de 15 mil para 28 mil hectares entre 2002 e 2004 com a chegada da soja.
Porém, segundo estimativas do MMA, entre 2004 e 2005 houve uma diminuição de 30,5% no desmatamento da Amazônia em relação ao biênio 2002-2003.
O novo Atlas será lançado dia 25, durante a Oitava Reunião da Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica (COP 8), de 20 a 31 de março, em Curitiba, sob promoção da ONU.
No mesmo evento, só que no dia 22, a monumental obra de von Martius será lançada na Internet. O 'Flora Brasiliensis On-Line' estará acessível pelo endereço http://florabrasiliensis.cria.org.br.
"A importância da Flora Brasiliensis pode ser medida pelo reconhecimento histórico e internacional. Os milhares de gêneros e espécies botânicos, agora em meio eletrônico, permitirão acesso amplo de estudiosos, interessados e da sociedade em geral à riqueza científica e cultural da obra máxima de von Martius", disse Carlos Vogt, presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), uma das financiadoras do projeto, ao lado da Natura Cosméticos e Vitae Apoio à Cultura, Educação e Promoção Social.

Os 'dinos' como exemplo
O Brasil recebe, a partir de hoje, duas das maiores conferências internacionais da área ambiental: o 3ª Encontro das Partes do Protocolo de Cartagena sobre Biossegurança (MOP-3), que se encerra dia 17, e a 8ª Conferência das Partes (COP- 8), da Convenção da Diversidade Biológica (CDB), entre os dias 20 e 31, ambas em Curitiba (PR). São esperadas cerca de 4,5 mil pessoas de quase 200 países, ONGs e especialistas de todo o mundo. A CDB foi idealizada durante a Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro, em 1992, quando os países decidiram unir esforços para conter a extinção e manter o equilíbrio ecológico diante do desenvolvimento econômico. Foi o primeiro acordo mundial sobre o tema e entrou em vigor em 1993. Atualmente, tem 188 'partes' (187 governos nacionais, mais a União Européia), com três objetivos: conservar a diversidade biológica, promover o uso sustentável e dividir de forma justa e igualitária os benefícios desses recursos genéticos. Apenas três países ainda não ratificaram a CDB: EUA, Iraque e Brunei. Segundo o "Relatório da Avaliação Ecossistêmica do Milênio - 2005", feito por mais de 1.300 pesquisadores, a pedido da ONU, nunca se perdeu tantos ecossistemas e biodiversidade como nos últimos 50 anos, transformando-se na maior crise de perda de animais e vegetais da história da humanidade, só comparável em magnitude ao evento que causou a extinção dos dinossauros há 65 milhões de anos.

Invertebrados marinhos
No Brasil, com exceção de alguns poucos grupos, a biodiversidade conhecida dos invertebrados marinhos é de apenas 10% em média. Ou seja, há muito ainda a se conhecer. Apesar de vários fatores ajudarem a explicar esse descompasso (um deles é o tamanho do litoral brasileiro), fica claro que existem muitas espécies marinhas ainda não registradas.
"Estima-se que o número de espécies na costa brasileira deva dobrar ou triplicar se houver esforços de coleta direcionados aos ambientes menos estudados, como os de profundidade ou plâncton oceânico", disse Antônio Carlos Marques, professor do Instituto de Biociências da USP, à Agência FAPESP.
Marques destaca que o avanço no conhecimento básico dos invertebrados marinhos é fundamental não apenas para os cientistas. Tais dados podem ser essenciais também para diversos setores da sociedade brasileira.
O aumento no conhecimento a respeito dos invertebrados marinhos será um dos assuntos em pauta durante a 8ª Reunião da Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica (COP 8).
Para que o conhecimento cresça e a biodiversidade possa ser usada de forma sustentável - esses são dois dos três objetivos principais da Convenção sobre Diversidade Biológica - não são necessários apenas investimentos na área científica. Segundo os especialistas, é preciso que se crie uma visão interdisciplinar.
Além disso, ações de educação ambiental e de turismo podem ajudar bastante na preservação de todo o ecossistema marinho brasileiro. "As formações coralinas e os demais ambientes litorâneos vêm sendo explorados pelo ecoturismo, mas ainda de forma pouco organizada e pontual", lembra Marques.

Aves do Brasil
No mais recente estudo da Sociedade para a Conservação das Aves do Brasil (SAVE Brasil), foi apontado o Estado do Rio Grande do Sul como o campeão em superfície para a proteção de aves. O Estado tem 1.047.051 hectares que devem ser protegidos, distribuídos em 12 IBAs.
A SAVE Brasil é a representante da Bird Life International no país, e seu estudo apontou 163 Áreas Importantes para a Conservação das Aves (ou IBAs, na sigla do inglês Important Bird Areas) no Brasil.
O trabalho englobou 15 estados da Mata Atlântica, por ser a área mais ameaçada (83% das espécies de aves ameaçadas de extinção no País ocorrem nesses estados) e por ser a região com a maior quantidade de informações disponíveis. As 163 IBAs identificadas totalizam 8.385.791 hectares.
A Bahia é o Estado com o maior número de IBAs identificadas (31 áreas), seguida por Minas Gerais, com 18. No Espírito Santo, por exemplo, duas grandes áreas particulares, sem proteção garantida, são os principais refúgios ainda existentes da saíra-apunhalada (Nemosia rourei).
O mapeamento inclui também áreas bastante pressionadas pela urbanização, como a Serra da Cantareira, em São Paulo, abrigo de quatro espécies ameaçadas de extinção - gavião-pomba (Leucoptemis lacemulata), pomba-espelho (Claravis godefrida), papagaio-de-peito-roxo (Amazona vinacea - foto) e araponga (Procnias nudicollis) -, além de outras nove quase ameaçadas.
O resultado será publicado no livro "Áreas Importantes para a Conservação das Aves no Brasil", que será lançado durante a COP 8.