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"A atual capacidade de gerar e armazenar dados é infinitamente superior à capacidade de analisá-los e utilizá-los em todo seu potencial"

Publicado em 10 julho 2017

A afirmação é de Ronan José Campos, diretor comercial da IDGeo, empresa especializada em transformar a diversidade de dados coletados e armazenados em conhecimento estratégico a respeito do território produtivo. Nascida em 2013, em Piracicaba-SP, a empresa é uma das propostas inovadoras selecionadas para se desenvolver no parquetecnológico da ESALQ/USP, a ESALQTec. Nesta entrevista exclusiva, o pesquisador fala sobre a atuação da IDGeo e da parceria firmada com a Canaoeste para oferecer um novo serviço aos seus associados.
Confira:

Revista Canavieiros: A IDGeo foi criada quando?
Ronan José Campos: Criamos a IDGeo em 2013 para darmos continuidade ao desenvolvimento do projeto de monitoramento agrícola que iniciamos quando estávamos trabalhando em usinas.

Revista Canavieiros: O que a startup faz?
Campos: Trabalhamos em três linhas: Inovação, Consultoria e Treinamentos. Nosso maior esforço concentra-se na Inovação, gerando novos processos no tratamento e interpretação de dados focados na gestão agrícola. Esses dados têm diversas origens, como imagens de satélites, GPS de máquinas agrícolas, veículos, mapas de aplicação de insumos e o banco de dados das áreas produtivas. Temos um grande projeto chamado "Cana Viva", sendo financiado pela FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) - maior agência de fomento à pesquisa, que busca o monitoramento mensal e contínuo das áreas de produção agrícola utilizando satélites, gerando respostas em tempo hábil para manejo com recuperação de produtividade e redução de custos.

Além disso, nossa equipe é composta por profissionais muito qualificados, formados e desenvolvendo seus trabalhos nas melhores universidades do país. Apesar de ainda pequenos, já chamamos a atenção de grandes empresas, inclusive de outros setores como silvicultura. Estão bem interessados na migração da tecnologia que desenvolvemos em cana para a produção de eucalipto.

Revista Canavieiros: Quais clientes atende?
Campos: Investimos muito no processamento de grande volume de dados, principalmente depois da parceira com a Microsoft, utilizando os mais potentes computadores disponíveis atualmente. Com isso, atendemos grandes projetos, principalmente na produção cana-de-açúcar, entre usinas e consultorias do setor.

Revista Canavieiros: O setor sucroenergético faz parte da sua carteira?
Campos: É o principal setor! Nascemos, crescemos e nos desenvolvemos no mundo canavieiro! Acreditamos piamente que o setor é o melhor modelo de desenvolvimento sustentável para o Brasil e o mundo como fonte energética, tanto biocomburente como bioelétrica, social e ambiental.

Em nossa vivência, confirmamos como o setor sucroenergético está na vanguarda da tecnologia no campo, tanto em maior número de equipamentos, quanto em integrações de tecnologia no campo. Além de desenvolvermos a sustentabilidade na geração de energia, ainda ajudaremos no ganho de eficiência operacional e controle na produção de alimentos.

Revista Canavieiros: A startup já atendeu outra associação ou cooperativa? Fale a respeito, por favor?
Campos: Esta é nossa primeira parceria com associação, com grande surpresa e alegria. Digo surpresa pela grande motivação da Canaoeste em buscar as melhores tecnologias disponíveis e torná-las acessíveis aos associados. Normalmente, essa demanda vem de grandes empresas do setor, por uma associação é a primeira. 

Revista Canavieiros: No que consiste a parceria entre a IDGeo e a Canaoeste?
Campos: A parceria consiste inicialmente no desenvolvimento de uma tecnologia exclusiva para a Canaoeste na geração de toda base cartográfica e gestão do banco de dados agrícola. O objetivo principal é que os associados tenham melhor qualidade de informações e mapas que as usinas apresentam de suas áreas. Além disso, a Canaoeste se beneficia com a maior aproximação do produtor e com melhores informação, melhorará seu apoio técnico a ele.

Revista Canavieiros: Como funcionará este projeto?
Campos: Este projeto se estenderá por 12 meses e durante esse tempo iremos gerar mais de 4 mil mapas e análises da qualidade da lavoura utilizando imagens de satélites, contemplando todos os associados Canaoeste.

Todo relacionamento com o produtor acontecerá por meio dos agrônomos da associação que irão programar a geração do mapa de cada associado. Assim que pronto, o agrônomo retorna ao associado para verificação em campo e coleta das informações junto ao associado. A seguir, o associado receberá o seu mapa atualizado e o resultado da qualidade de sua lavoura. Assim, anualmente os mapas e informações estarão sempre atualizadas e os técnicos e produtores estarão melhores munidos para as tomadas de decisão!

Revista Canavieiros: A partir de quando estará disponível aos associados da Canaoeste?
Campos: Iniciamos os trabalhos em maio, com os primeiros resultados na segunda quinzena de junho.

Revista Canavieiros: Como o associado poderá utilizar o projeto?
Campos: A maneira mais básica é no planejamento e controle das atividades agrícolas, já que terá em mãos as informações atualizadas de sua propriedade, principalmente com área líquida de cultura, principal fator de custos e receitas.
Já com a análise de qualidade, o produtor saberá com precisão quais foram as áreas menos produtivas, e com o apoio dos agrônomos da Canaoeste poderão definir um plano de ação na recuperação da produtividade dessas áreas sempre que possível.

Revista Canavieiros: Quais benefícios este novo serviço trará aos associados?
Campos: Informação! Este é o grande benefício, pois quanto mais informação o associado possui sobre sua lavoura, melhor ele consegue maximizar sua lucratividade, assim como a equipe técnica da Canaoeste pode assessorá-lo melhor.

Com a análise da qualidade da lavoura, o produtor tem a oportunidade de racionalizar seu investimento, pois saberá como está cada parcela da sua produção. Ou seja, aplica seus insumos no local certo, na dose certa. Além disso, consegue identificar os principais locais de atenção que estejam com problema.

Revista Canavieiros: O custo de um projeto deste tipo ainda é inacessível no mercado caso o associado fosse adquirir diretamente, sem a parceria com a associação?
Campos: Para o pequeno produtor sim, pois o custo fixo associado ao trabalho é alto, tanto que atualmente a área mínima que fazemos de trabalhos como este é de 1.000 ha. Quando falamos em Canaoeste, juntos são mais de 120.000 ha, diluindo e muito os custos fixos tornando o trabalho viável a todos! Com essa parceria, abrem-se muitas oportunidades de levar o que há mais tecnológico ao pequeno produtor, fazendo-o tão competitivo como as grandes agroindústrias.

Revista Canavieiros: Qual a importância de utilizar a tecnologia para o desenvolvimento da agricultura, na sua opinião?
Campos: Como produzir já sabemos, agora a pergunta é como melhorar a aplicação do nosso conhecimento. É fato que revolução agrícola que está acontecendo sustenta-se na informação. Grandes empresas de tecnologia como
Google, IBM, Microsoft estão com linhas de PD&I voltadas para a produção agrícola. Precisamos fazer mais com o mesmo, as áreas de expansão agrícola estão limitadas, exceto no Brasil que ainda há potencial de expansão.

Para isso, precisamos conhecer melhor nossa produção e fazer os manejos ao detalhe, para que isso acontece, faz-se necessário o uso da tecnologia. É fazer o investimento certo, na hora certa e no local correto. Isso traz a maior competitividade e sustentabilidade no agronegócio.

Do ponto de vista social, o uso da tecnologia é imprescindível pois as novas gerações que trabalham no campo tem um perfil tecnológico, já vivem nas redes sociais e na busca de aplicativos para facilitarem suas atividades. Esse pessoal não se encaixa nas tradicionais rotinas agrícolas e irão mudar a gestão e operação da agricultura.

Exemplo prático desta situação são as máquinas empregadas hoje no campo, arrisco a dizer que a maioria dos equipamentos vendidos atualmente são com câmbio automático, por duas simples razões: mais eficientes e menor exigência de operadores. Reflexo desta condição foi a grande repercussão do trator autônomo apresentado pela Case IH na Agrishow deste ano.

No entanto, o uso das funcionalidades dos equipamentos atuais ainda é baixa, não usufruindo de todos os recursos disponíveis, principalmente suas informações de telemetria e qualidade operacional. Estamos trabalhando nesse meio para ajudar os produtores. A situação é: muita expectativa cria se quando se investe em tecnologia no campo, mas o retorno está abaixo do esperado por não saber como utiliza-la ou incorpora-la no processo de produção.

Revista Canavieiros: A falta de conectividade no campo é um problema relatado para o desenvolvimento da agricultura digital. Como resolver essa questão?
Campos: Sem dúvida a conectividade tem sido um grande desafio na implantação de novas tecnologias no campo, principalmente no Brasil por sua grande extensão e rico relevo. No entanto, vejo isso como um desafio que rápido será vencido, muitas tecnologias vêm sendo testadas e desenvolvidas por aqui, como 4G privado, conexões por satélites e conexão de alta latência em dispositivos IoT. Fato que o campo estará ainda mais conectado, a grande questão é: como utilizar todos esses dados? Os dados que já temos atualmente estão mal aproveitados, precisamos rever isso com urgência. Nós da IDGeo fizemos desta questão nosso desafio, precisamos entregar usabilidade a todos esses dados. O produtor tem que ter soluções e não dificuldades, pois destas já bastam os desafios de se produzir!

Fonte: Andréia Vital, Revista Canavieiros - Edição 122