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O Imparcial (Presidente Prudente, SP)

A arte de transformar

Publicado em 22 junho 2017

Por Marcos Alegre

Não foram as iniciativas na área de educação em ciências que deram fama a Isaias Raw. No início da década de 1960, ele já era um bioquímico reconhecido internacionalmente. Hoje vou escrever alguma coisa sobre o grande cientista Isaias Raw, o bioquímico que levou o Instituto Butantan a produzir 200 milhões de doses de vacinas anualmente.

Estudante da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo), aos 20 e poucos anos construiu um Museu de História Natural e fundou a revista Cultus, para difundir as informações sobre a biologia moderna entre professores. Aos 75 anos, tanto fez que conseguiu inaugurar, em 2002, o Museu de Microbiologia no Instituto Butantan, cuja missão é estimular a curiosidade científica entre alunos e professores do ensino fundamental e médio. Vale dizer que Isaias Raw revolucionou o ensino de ciências e a produção de insumos para a saúde. “Entrei na faculdade interessado em fazer pesquisa e não ser médico”, explica o cientista.

Isolou uma das enzimas do ciclo de oxidação de ácidos graxos, obteve a cristalização da crotonase, demonstrou a existência de uma via alternativa de transporte de elétrons na membrana externa da mitocôndria e provou que subpartículas mitocondriais eram capazes de conservar energia química na molécula de ATP. Suas observações confrontaram o dogma de que a mitocôndria deveria estar intacta para haver fosforilação e incomodaram os papas da bioquímica. Essa importante descoberta só foi reconhecida em 1967. Raw foi também pioneiro na investigação de enzima do metabolismo do “tripanosoma cruzi”.

Na época ele também dava aulas na Faculdade de Medicina. Um amigo, e então diretor da Fapesp (Fundação de Amparo a Pesquisa de São Paulo), doutor Ricardo Brentani, antigo diretor do Instituto de pesquisa contra o câncer, e ex -aluno do professor Raw, afirmava sempre que “Isaias era desafiador”. No laboratório, estimulava os alunos e professores a experimentarem qualquer ideia, mesmo que a conclusão fosse a de que só se aprende fazendo errado. Dizem seus ex-alunos que “Isaias foi fundamental nas suas formações como cientistas e como gente”. O cientista-professor teve seu momento de empreendedor: criou na Fundação para o Desenvolvimento do Ensino de Ciências, então sob sua direção uma indústria de equipamentos médicos e científicos, de onde saíram os primeiros eletrocardiógrafos monitores e fotocolorímetros, produzidos no país.

A qualidade das pesquisas credenciou-o para o cargo de professor de Química Fisiológica da Faculdade de Medicina em 1964, logo depois de ter saído da prisão, acusado de subversivo. É preciso dizer ainda que esse grande cientista, um dos melhores de sua época, foi preso duas vezes. A segunda em 1969, que o levou ao exílio quando ele desembarcou na Universidade Hebraica de Jerusalém, depois passou por diversas universidades da Europa e Estados Unidos.

Voltou ao Brasil em 1980 e não aceitou ser reintegrado à Faculdade de Medicina. Acabou indo para o Laboratório de Análises Clínicas e foi contratado pelo Instituto Butantan. Sob sua direção fez com que o Instituto produza 200 milhões de doses de vacina por ano entre as quais a tríplice (coqueluche, difteria e tétano). Ele pretendia construir uma fábrica de hemoderivados. Veja, dileto leitor: Um cientista que fez muito pela saúde do povo deveria ser premiado, entretanto foi preso e exilado. Esse foi o modelo do que fez a ditadura no Brasil.