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Diário do Comércio (SP) online

A arte de colorir o ouro

Publicado em 15 maio 2011

Por Giseli Cabrini

A metalurgia do pó - que inclui entre outras técnicas a moagem de alta energia - inspirou o brasileiro Edval Araújo a desenvolver e lançar comercialmente o ouro colorido. Na versão 18 quilates - composto por 75% de ouro e 25% de outros metais até então não utilizados pela ourivesaria -, esse material permite incrementar ainda mais a arte de fazer joias.

E planos para a evolução do conceito começam a sair do papel. Eles preveem uma tecnologia que permita revestir peças já prontas em ouro tradicional com a versão colorida. Ou seja, renovar ou sofisticar joias antigas.

Tudo começou no ano de 2003. Com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) que direcionaram R$ 1,2 milhão para o projeto, Araújo e outros três pesquisadores começaram os trabalhos.

Atômico - "No método tradicional, o ouro é fundido com outros metais como prata, cobre e platina a altíssimas temperaturas. Isso inviabiliza a mistura com outros materiais que usamos para colorir as peças que são o ferro, o cromo e o cobalto em virtude da oxidação. A moagem de alta energia, utilizada nos anos 1960 para produzir superligas para turbinas de aviões, possibilita que a liga seja feita sem a necessidade de altas temperaturas. Os pós dos metais se soldam e se quebram em um nível atômico."

Por meio desse processo, esse pó vai para uma prensa no qual é compactado a uma pressão de duas a sete toneladas por centímetro quadrado. A partir dessa etapa, são feitas peças no formato final ou chapas de 20 por 25 milímetros e 1,3 milímetro de espessura, para uso posterior também em joalheria. Isso permite que as joias sejam adornadas com pedras preciosas, estampas e desenhos feitos a laser.

As peças são aquecidas em forno abaixo da linha de fusão. A cor da liga só aparece quando o material recebe tratamentos térmicos em temperaturas que variam de 100 ºC a 700 ºC. A mesma peça pode ter uma cor homogênea ou variações de tons que englobam púrpura, avermelhado, chocolate, azul, cinza, preto, além dos tradicionais.

Peças são feitas com ouro de diversas cores, adornadas com pedras preciosas, estampas e desenhos feitos a laser.Para que as joias coloridas tenham proteção contra o desgaste natural dos óxidos metálicos uma resina especial, que funciona como uma espécie de selante, foi desenvolvida para recobrir as peças prontas.

O fato de essa técnica tornar possível produzir várias ligas metálicas levou sua aplicabilidade para a indústria automotiva. Nesse caso, os pós de aço, ferro e bronze são compactados em uma prensa hidráulica de alta tonelagem para moldar a peça, que segue então para um forno com atmosfera controlada para sinterização do material, ou seja, a soldagem das partículas entre si.

Mercado - A parceria foi desfeita e Araújo abriu sozinho, em 2007, uma fábrica de joias produzidas com ouro colorido em Sorocaba (SP). A joalheria virtual, batizada de Chancelier Concept Jewellery (www.chancelier.com.br), surgiu em 2009.

"A partir de uma pesquisa em parceria com a Fundação Getúlio Vargas (FGV) apenas na Grande São Paulo, identificamos que o ouro colorido teria aceitação de grande parte das mulheres das classes A e B. Além disso, detectamos que as mulheres estariam dispostas a pagar até 50% mais por uma peça com esse material em relação ao convencional. A partir disso, estimamos um mercado de R$ 90 milhões somente nessa região do País", afirma Araújo.

Sem revelar valores exatos sobre as joias, Araújo estima que, em geral, elas custem duas vezes mais que as produzidas com o ouro tradicional. "Temos um outro conceito. A ideia é confeccionar peças exclusivas ou em edições limitadas. Queremos algo artístico que possibilite reproduzir peças de arte. Usar ouro colorido no lugar de tintas."

Embora tenha uma forte ligação com o mundo acadêmico, Araújo, que é engenheiro metalurgista e mestre, tem uma visão pragmática. "A etapa de desenvolvimento acabou. Temos agora que investir fortemente em marketing e transformar o ouro colorido em um negócio lucrativo, a exemplo do que ocorre nos dias atuais com o material convencional."