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Cruzeiro do Sul online

A apatia diante da epidemia

Publicado em 14 abril 2010

Por Wilson Marini

A dengue, que se arrasta há duas décadas no Estado de São Paulo, atingiu este ano o pior quadro na maioria dos municípios, e de forma escandalosa no Litoral e regiões mais quentes do Interior. Rio Preto, Ribeirão Preto, Araçatuba e Guarujá, entre outras, perderam a conta do número de casos em 2010. São milhares de registros, que somados aos milhares verificados em anos anteriores, tornam a maioria da população dessas cidades contaminada por pelo menos um sorotipo do vírus. O problema para o futuro é que a pessoa infectada por um segundo sorotipo tem ampliada a chance de contrair dengue hemorrágica, segundo especialistas. Quem se incomoda?

Dois lados

Na esfera estadual, falar abertamente sobre o assunto passa a ser bom tema apenas para a oposição. O perigo é real e imediato e exige mobilização total, alerta o deputado Fausto Figueira (PT), que é médico. O problema é grave o bastante para que o Ministério Público apure eventuais omissões das autoridades responsáveis. A resposta política do governo é tentar suavizar os dados. A Secretaria de Saúde afirma que o número de casos no Estado em março (8.076, na estatística oficial) é 52% inferior ao registrado em fevereiro. Correto. Não informa, porém, que a conta mais honesta deve ser feita multiplicando-se por dez cada caso notificado. E não compara com anos anteriores. Joga-se com os números.

O risco

Os sucessivos recordes da epidemia - nunca a doença afetou tanto como em 2010 na maioria das cidades paulistas - traçam um panorama sombrio de saúde pública que poderá ter conseqüências ainda piores no verão seguinte, se medidas coordenadas e inteligentes não forem tomadas agora. E o pior: à ineficiência da maioria das ações locais das prefeituras, entidades e voluntários, soma-se a postura olímpica das autoridades estaduais que não reconhecem publicamente a existência de uma grave epidemia. Ou pelo menos, não tomam atitudes condizentes com a séria ameaça à saúde pública.

As águas de abril

Represas do Alto Tietê, na Grande São Paulo, passaram do limite de 100% de armazenamento. Uma chuva forte na cabeceira pode gerar problemas em áreas habitadas, segundo revela O Diário de Mogi. A água está literalmente derramando. Depende apenas de São Pedro. Essa é uma situação atípica, afirma o superintendente de Produção de Água da Sabesp, Hélio Castro. Pelo menos desde que estou aqui (1992) não me lembro de um quadro como este, referindo-se ao nível das barragens nesta época do ano.

Alertas de novembro

Situação atípica, mas prevista. A estratégia da Sabesp em adiar as operações de descarga das represas em dezembro merece investigação no mínimo como aprendizado nesses tempos de aquecimento global. Alertas sobre o elevado nível dos rios haviam sido disparados de Brasília pela Agência Nacional de Águas (ANA) no início de novembro. Os avisos foram empurrados com a barriga até o ponto que não dava mais para segurar, na metade de dezembro. A Sabesp retardou o esvaziamento porque, confiando nos dados da série histórica, temia causar diminuição do estoque de água para abastecimento da população da Grande São Paulo após o verão. Não contava com dois meses seguidos de chuva, situação atípica. Como não contava com as águas de abril. E agora, atua como equilibrista, torcendo para não chover.

De volta aos anos 70

Uma boa notícia. A área ocupada pela vegetação nativa do estado de São Paulo cresceu pela segunda década consecutiva e alcançou um espaço semelhante ao registrado há 40 anos. É o que destaca a revista Pesquisa Fapesp de abril, em matéria de Ricardo Zorzetto. Os números foram divulgados pelo Instituto Florestal de São Paulo. São Paulo possui cerca de 4,34 milhões de hectares de campos e florestas, a maioria Mata Atlântica, que cobrem 17,5% do território paulista - algo muito próximo do total de florestas nativas antes da transformação da paisagem das matas paulistas a partir de 1970.