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A Amazônia é o pulmão do mundo?

Publicado em 28 agosto 2019

Quando fez essa pergunta em um post em seu perfil no Facebook, na semana passada, o cientista Antonio Nobre, respondeu: Sim e Não! Queria esclarecer e talvez ajudar a acalmar a polêmica em torno da expressão que muita gente usa, há muito tempo, para revelar sua preocupação com a Amazônia ou pra dizer o quanto ela é importante para a humanidade. Polêmica que foi reforçada com as declarações do Papa Francisco e do presidente da França, Emmanuel Macron, num clima de total consternação devido às queimadas.

O músico britânico Sting, em post no Facebook ontem – no qual acusou Bolsonaro de “negligência criminosa em escala global” – disse o mesmo sobre a Amazônia, reiterando que o termo “pode não ser anatomicamente correto, mas o significado convém, já que é algo vital e insubstituível na cadeia do bem-estar de nosso planeta e o estreitamento crescente dos vetores climáticos com os quais a vida humana pode sobreviver”.

A Amazônia é especialidade de Nobre, portanto, ninguém mais interessante para esclarecer o assunto. Ele é autor do relatório O Futuro Climático da Amazônia sobre a importância da floresta e seu papel no contexto das mudanças climáticas, lançado em 2014.

Todos os dias, o cientista acompanha e comenta, no Facebook, as notícias mais relevantes sobre desenvolvimento sustentável, ciência, árvores, reflorestamento… Fica empolgado a cada notícia sobre mutirões de plantio pelo mundo. Agora, especialmente, ele acompanha notícias e comentários sobre a floresta amazônica, que ainda está em chamas.

Mas o fato é que a Amazônia não é o pulmão do mundo. Essa afirmação certamente é fruto de licença poética, uma maneira de dizer que a Amazônia é extremamente vital para a humanidade, como comentou Sting. E é. Os verdadeiros pulmões do mundo são os oceanos devido às algas marinhas. Elas produzem mais oxigênio pela fotossíntese do que precisam e o excesso é liberado para o ambiente. Já a floresta amazônica libera muito menos oxigênio para a atmosfera porque, a maior parte do gás que produz, é consumido por ela.

Esta é uma explicação bem resumida do que vai pelos livros de Ciência e pela internet. Mas o que quero mostrar, aqui, é o texto que Nobre publicou no Facebook pra responder à questão que lançou, e que intitula este post. Dizer “Sim e Não!” só aguçou a curiosidade de quem esperava uma resposta mais objetiva.

Assim, entre explicações científicas e reflexões generosas, ele conta o que acontece com o CO2 e com O2 na floresta, quase como numa aula de biologia daquele professor que a gente mais gosta. No final do texto de Nobre, incluí um vídeo no qual ele fala dos Rios Voadores, que abastecem o sudeste do país com chuvas e umidade. Um ótimo complemento para a leitura e que adoro rever.

Respire fundo!

“Pulmão é o órgão do corpo animal que faz troca de gases. As folhas das plantas (todas plantas: no mar ou em terra) fazem troca de gases. E, não por coincidência, elas trocam os mesmos gases trocados pelos animais (CO2 e O2). O processo que nas plantas consome CO2 e produz O2 chama-se fotossíntese. O processo que nos animais (e plantas também) consome O2 e produz CO2, chama-se respiração.

A floresta amazônica saudável – e, nos tempos atuais, de aumento da concentração de CO2 na atmosfera – sequestra CO2 (netamente). Mas, quando assim o faz, produz e libera a mesma quantidade estequiométrica de O2. A floresta doente, ou em regiões muito desmatadas e degradadas, já não compensa o excesso de CO2 emitido pelos processos destrutivos, e pode até emitir CO2 netamente.

[Aqui, vale uma explicação: net ou neto é o peso líquido, ou seja, o saldo no caso do CO2 ou do O2, entre tudo que entrou e tudo que saiu da planta ou do animal; netamente, no texto, se refere a neto]

Então, a floresta funciona, sim, como um pulmão – entre suas múltiplas funções que emulam órgãos do corpo – porque troca gases.

Pulmão saudável cosome CO2 (limpando o ar deste gás, hoje em excesso) e emite uma “relativamente pequena” quantidade de O2. Num pulmão doente, os fluxos netos se invertem.

O sequestro de CO2 é relativamente mais importante para o clima global – em termos de trocas de gases – do que a emissão de O2. Portanto, essa função de pulmão/filtro de CO2 precisa ser mantida (para a floresta continuar saudável) e recuperada com restauração florestal (para as regiões impactadas).

Agora, sobre a controvérsia e o senso comum. Novamente, o oxigênio vem de TODAS as plantas: aquáticas e terrestres. Como temos quase 21% de O2 na atmosfera e apenas 0,04% de CO2, a retirada e a produção de volumes equivalentes destes gases gera efeito proporcionalmente MUITO maior no estoque de CO2 do que no de O2.

Essa polêmica sobre se a Amazônia é ou não o pulmão do mundo é enviezada e sofre de erros históricos.

Uma floresta em estado clímax, de fato, consome todo O2 que gera, tendo um fluxo neto de troca de CO2 com a atmosfera que se aproxima de zero. Mas tal floresta precisaria existir em uma atmosfera onde a concentração de CO2 (lembre-se: esse gás é um ADUBO para as plantas) estivesse estável, o que não é o caso.

Com o aumento de CO2 no ar, as plantas fazem mais fotossíntese, retiram o excesso, e portanto, geram um neto de O2. Assim, deixam de estar no estado clímax.

Acho bom combater erros (inclusive daqueles que não estudaram o ciclo biogeoquimico global do carbono). Mas de todos os erros e imprecisões, esses sobre o pulmão do mundo para florestas é o mais irrelevante e periférico.

Conselho: parem de bater em quem fala que a Amazônia é o pulmão do mundo, porque “também” o foi no sentido biogeoquimico e simbólico, função que precisa ser recuperada. E mais: ela é, junto com os oceanos e outros ecossistemas, o coração, os rins, o fígado, o sistema endócrino…

Gaia vive e respira, precisa de todos os seus órgaos funcionais para continuar a oferecer um lar cósmico confortável para nós!”.

Agora, depois desta reflexões e do convite de Nobre para sermos mais maleáveis nos debates sobre as qualidades pulmonares da Amazônia, assista ao vídeo produzido pela Pesquisa Fapesp no qual o cientista explica o maravilhoso sistema dos Rios Voadores, um mistério decifrado que valoriza ainda mais a floresta, que ainda continua em chamas.