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A alternativa para o dilema entre saúde pública e bem-estar econômico está na inovação

Publicado em 11 maio 2020

Editorial da revista Science propõe a adoção de políticas públicas que ampliem a escala de investimentos em pesquisas inovadoras e a coordenação de esforços contra a pandemia de covid-19

A pandemia de covid-19 colocou para os países de todo o mundo o dilema “brutal” de ter que escolher entre a saúde pública e o bem-estar econômico, já que, até o momento, a única defesa disponível contra a disseminação do SARS-CoV-2 é o isolamento social.

Para contornar essa “escolha indefensável”, a alternativa é a inovação, afirmam Pierre Azoulay, professor da Sloan School of Management do Massachusetts Institute of Technology (MIT), e Benjamin Jones, professor da Kellogg School of Management da Northwestern University, Evanston, pesquisadores associados no National Bureau of Economic Research, em Cambridge, nos Estados Unidos, em editorial publicado na revista Science na última sexta-feira (08/05).

“Os governos estão priorizando a saúde pública, mas a solução atual – o isolamento social – custa caro por requerer o fechamento do comércio. A reabertura das economias poderia reacender a pandemia e causar ainda mais sofrimento humano”, afirmam.

Eles reconhecem que o mundo precisa de vacinas e terapias eficazes e que estas soluções precisam ser encontradas rapidamente. E a única alternativa para acelerar esses avanços com retornos altos está em políticas de inovação. “Nos Estados Unidos, a COVID-19 reduziu o produto interno produto (PIB) em cerca de 30%. E se o investimento adicional em pesquisa e desenvolvimento (P&D) pudesse adiantar uma vacina eficaz em apenas um dia? Tal investimento se pagaria a si próprio se custasse menos que a perda diária do PIB [US$ 18 bilhões somente nos Estados Unidos]. Até mesmo o financiamento incremental de grande porte para apoiar P&D terá escala minúscula em comparação com os US$ 2,8 trilhões que o governo norte-americano está gastando para compensar o fechamento da economia”, argumentam.

Mas, para fechar essa conta, é preciso definir os princípios orientadores de políticas governamentais de inovação para o combate à COVID-19. “É fundamental apoiar muitas iniciativas de investigação independentes. Os resultados do investimento em P&D são incertos. Muitas linhas de pesquisa não darão em nada e por isso mesmo é preciso seguir muitos caminhos diferentes, cada um correspondente a um esforço independente”, recomendam.

Apesar do risco, ante o custo econômico da pandemia, o saldo dos investimentos em inovação será sempre positivo. “Considere o investimento de recursos financeiros em 10 mil desses esforços. Mesmo que cada esforço tivesse uma probabilidade de apenas 0.1% de produzir um avanço em termos de prevenção, tratamento ou controle da doença, a probabilidade de se realizarem pelo menos cinco avanços seria de 97%. Se em vez disso os esforços se concentrarem em apenas algumas poucas iniciativas, as chances de um fracasso coletivo poderiam tornar-se avassaladoras”, argumentam.

O empenho inovador, portanto, deve buscar alavancar todos os talentos disponíveis. “Há uma abundância de talentos no campo da pesquisa científica e tecnológica, mas a pandemia forçou o fechamento de muitos laboratórios e a dispersão de suas equipes. O investimento privado prioriza soluções comercializáveis, mas as descobertas relevantes provavelmente virão da procura de respostas a perguntas do tipo “por quê” (por exemplo, pesquisa fundamental sobre a fisiopatologia da doença) e não simplesmente de projetos de reposicionamento de fármacos já aprovados pelos órgãos competentes. Além do mais, muitas vezes as boas ideias vêm de lugares inesperados. Soluções úteis poderão ser descobertas fora da biomedicina, inclusive nas engenharias e na informática.”

Nos Estados Unidos, eles sugerem, uma agenda política ousada de inovação deveria se traduzir no fortalecimento de aportes de recursos financeiros para P&D, conforme recente determinação da Task Force on American Innovation (TFAI) e 17 outras organizações. “Além disso, qualquer pesquisador que já atue como coordenador de projeto [principal investigator] e esteja recebendo recursos públicos deve poder contar com apoio imediato para trabalhar na COVID-19 com o mínimo de burocracia, permitindo solicitação e aprovação no prazo de uma semana.”

Azoulay e Jones citam o exemplo do National Institutes of Health (NIH), que deu alguns passos iniciais nessa direção com procedimentos emergenciais para suplementar os auxílios existentes. “Mas esses esforços precisam aproveitar mais laboratórios e talentos, além de acelerar o processo de análise. O investimento marginal via NIH, que chegou a US$ 3 bilhões, parece modesto, correspondendo à perda do PIB dos Estados Unidos em apenas quatro horas.”

Mas isso não é tudo. Azoulay e Jones defendem que, globalmente, os pesquisadores com expertise relevante deveriam ser considerados trabalhadores essenciais para ter acesso a seus laboratórios.

Seria preciso, ainda, agilidade na disponibilização do apoio governamental à P&D do setor privado. “Poderia ser lançado um `Programa de P&D da Pandemia´, com empréstimos elegíveis a serem perdoados futuramente dependendo do investimento efetivo em inovações relacionadas com a COVID-19, de modo a garantir que as restrições financeiras não prejudiquem a criação rápida de soluções. Poderia haver mais apoio via suplementação do sistema de dedução tributária para investimento em P&D já existente nos Estados Unidos e em outros países”, sugerem.

Esse esforço de organização e de investimento não seria um fato inédito. Eles lembram que, em junho de 1940, o governo norte-americano criou o Comitê Nacional de Pesquisa em Defesa (National Defense Research Committee, NDRC), formado por eminentes cientistas e inovadores nos setores público e privado, com a missão de realizar inovações relacionadas ao esforço de guerra. “Essa estrutura de liderança impulsionou o desenvolvimento rápido de numerosas tecnologias, incluindo sistemas bélicos, mas também medicamentos antimaláricos e a fabricação de penicilina.”

A exemplo do passado, deveria se estabelecer um Comitê de Pesquisa em Defesa contra a COVID-19, com o poder de coordenar e financiar soluções para a pandemia. “Tal grupo acompanharia os esforços de P&D, criaria um banco de dados público com a documentação das pesquisas conduzidas e proveria recursos financeiros para impulsionar inovações e avanços bem-sucedidos, além de reduzir a burocracia.”

A nova iniciativa dos Estados Unidos em prol do desenvolvimento de vacinas, denominada Operation Warp Speed, vai nessa direção, mas eles sublinham: “Precisamos também de esforços que vão além de vacinas”.

E concluem: “A COVID-19 apresenta ao mundo uma escolha brutal entre saúde econômica e saúde pública. Os investimentos em inovação são essenciais para evitar essa escolha. Mas são minúsculos quando comparados com as perdas econômicas atuais e com o custo de outros programas emergenciais. Até mesmo uma pequena aceleração dos avanços trará benefícios imensos.”

Agência Fapesp