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A alternativa da fagoterapia

Publicado em 27 outubro 2006

Por Washington Castilhos, Agência FAPESP

Pesquisadores da UFRGS propõem uso de bacteriófagos, vírus que se nutrem de bactérias, como alternativas para microrganismos resistentes a medicamentos

Uma vez que as bactérias estão cada vez mais resistentes aos antimicrobianos, um grupo de pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) propõe a fagoterapia como alternativa às drogas para as quais os microrganismos oferecem resistência.
Nessa abordagem, comumente usada em países como Polônia e Geórgia, são utilizados bacteriófagos, vírus que se nutrem de bactérias e coexistem com elas em seu hábitat natural, nos dejetos animais e humanos, no oceano ou em plantas.
"Eles estão em todos os ambientes. Para cada espécie de bactéria, existe um vírus específico", disse Marcos Gomes, professor de microbiologia clínica-veterinária da Faculdade de Veterinária da UFRGS, à "Agência Fapesp".
Nesta sexta-feira (27/10), o chefe do grupo de pesquisa gaúcho fará uma apresentação sobre o assunto no 3º Simpósio de Resistência aos Antimicrobianos, que está sendo realizado pelo Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), no RJ.
No Brasil, a equipe da UFRGS não está sozinha no estudo da fagoterapia como opção aos medicamentos tradicionais. Grupos da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, da Universidade Estadual de Campinas e outros também avaliam o método.
"Primeiro, isolamos o vírus, depois o purificamos. Como trabalhamos com esgoto, há a necessidade de cuidados especiais. Depois disso, podemos aplicá-lo experimentalmente", explicou Gomes.
Segundo o pesquisador, as bactérias também oferecem resistência aos fagos. A diferença da alternativa dos fagos para os medicamentos é que os primeiros evoluem naturalmente, na mesma medida em que suas "inimigas", as bactérias, também oferecem resistência para poder continuar a evoluir.
"Quando uma bactéria se torna resistente a um determinado remédio, vai levar algum tempo até que se desenvolva uma nova droga capaz de combatê-la. Por outro lado, ao oferecer resistência a um fago, este precisa continuar parasitando. É uma relação dinâmica: para cada bactéria resistente, surge um novo fago na natureza que também resiste a ela", explicou Rachel Pilla Silva, da equipe da UFRGS.
Foi o pesquisador franco-canadense Felix Hubert d'Herelle quem, em 1917, primeiro descobriu e isolou um fago. Em seguida, fez uma experimentação clínica em um menino de 12 anos que tinha disenteria, causada pela bactéria Sighella. Apesar do sucesso do experimento, quase um século depois, com exceção de alguns países, o método continua pouco utilizado.
"A fagoterapia ainda não é muito usada porque faltam estudos. Para usar um fago, o veterinário, dentista ou médico precisa dar um diagnóstico preciso, identificando com precisão o agente causador da doença, e saber se o vírus é lítico, ou seja, se ele vai destruir aquela mostra de bactéria, diferentemente dos antimicrobianos, que funcionam para várias doenças", alertou Gomes.
O pesquisador enumerou outros pontos positivos da fagoterapia. "Não há risco de efeitos colaterais, como quando se usa antimicrobianos, pois o fago vai atacar a bactéria especificamente. Ao aplicar o fago, atingimos um alvo, damos o tiro certo, não mexemos em mais nada no organismo", explicou.
Segundo ele, a administração pode ser feita via oral — como fez d'Herelle pela primeira vez — subcutânea, intramuscular ou tópica. "A aplicação mais importante é a tópica, porque não envolve sistema orgânico", alertou Rachel.
Marcos Gomes lembrou ainda a necessidade de uma cooperação entre os poucos grupos que estudam a terapia alternativa no país. "É importante juntar esforços. Isso facilitaria a obtenção de financiamento para pesquisas, que é uma de nossas maiores dificuldades atualmente", disse.