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Jornal do Brasil

A absurda ciência pregada por um jesuíta do século XVII

Publicado em 17 março 1996

Por Maurício Zágari
Tese revela teorias de matemático que defendia a existência de sereias e dragões Dragões existem, sereias povoam as águas brasileiras e pedras são um poderoso antídoto contra o veneno de serpentes. O que soa como absurdo para a ciência moderna era verdade no século XVII para um grupo de pesquisadores liderado pelo matemático e jesuíta alemão Athanasius Kircher, um dos principais consultores da Igreja Católica para assuntos científicos. Autoridade em seu tempo e autor de 29 livros, Kircher mostrou ser um fracassado: quase todas as suas teorias foram derrubadas com o passar dos séculos. Mais de 400 anos depois de morto, as hipóteses absurdas do jesuíta se tornaram tema da tese de doutorado na Sorbonne do físico Carlos Ziller, do Museu de Astronomia do Rio. Nascido em Geisa, na Alemanha, em 1602, Kircher era na época tão famoso quanto Galileu Galilei ou Descartes. O primeiro grande fracasso do matemático aconteceu quando tentou decifrar os hieróglifos egípcios. Depois de um grande esforço, apresentou uma proposta que foi bem aceita na época: entender os escritos não como letras, mas como emblemas. Ele estava errado. Kircher se correspondia regularmente com missionários que partiam para terras distantes. Desse contato surgiram evidências para algumas de suas mais bizarras teorias. Foi o caso, por exemplo, dos ossos do rabo de uma sereia - supostamente capturada no Brasil - que foram expostos no Museu do Colégio Romano, criado pelo matemático em Roma com o aval da Igreja Católica. O mesmo aconteceu com um suposto dente de dragão, descoberto na Ásia por outro missionário. Os visitantes do museu não deveriam se espantar com uma unha de gigante, também em exposição. A possibilidade da existência de sereias e dragões tinha como base a teoria de que as leis da natureza eram mutáveis e poderiam ser adequadas segundo a vontade de Deus. O interesse pelo trabalho do jesuíta surgiu quando Ziller foi à Biblioteca Nacional do Rio para fazer um levantamento bibliográfico de Galileu Galilei. Não encontrou nada escrito por ele, mas deparou-se com mais de 30 volumes sobre a ciência de Kircher. Em 1650, apareceu em Roma uma pedra vinda da Índia que, segundo relatos, teria sido retirada da cabeça de uma cobra naja. Acreditava-se que a pedra teria o poder de atrair o veneno de serpentes, servindo assim como excelente antídoto contra picadas. Bastaria posicionar a pedra sobre o local da mordida para que ela absorvesse o veneno. Besteira? Não para Kircher. Ele fez experiências com cães e gatos e constatou que a pedra funcionava, o que levou muita gente a acreditar no fato - com a bênção do Papa Alexandre VII, que solicitava constantemente ao jesuíta pareceres sobre livros e documentos científicos. Outra teoria bizarra do matemático era sobre a dinâmica das marés. Ele defendia a idéia de que a luz da Lua levava o sal marinho a inchar e, por isso, ocuparia, mais espaço no mar e causaria sua elevação. O surgimento de vermes em pedaços podres de carne seria devido ao fenômeno da geração espontânea, ou seja: surgiam do nada. Já o nascimento de gêmeos siameses, acreditava Kircher, seria conseqüência do calor e da umidade do ar no dia da concepção dos bebês. - Kircher representa a tentativa de construir uma nova ciência, diferente do aristotelismo. O fato de ter sido um fracassado não anula o fato de que, pelo menos, tentou desenvolver a ciência numa nova direção. A importância da ciência não é só o acerto, mas a tentativa - conclui Ziller.