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7 de março de 2008: chegada da família real ao Brasil completa hoje 200 anos

Publicado em 07 março 2008

Os historiadores têm à disposição documentação suficiente para compreender com clareza as causas e conseqüências da vinda da família real para o Brasil. Mas, até recentemente, não havia registros confiáveis sobre o que ocorreu entre o dia 29 de novembro de 1807, quando a corte deixou Lisboa, e o dia 7 de março de 1808, há exatos 200 anos, quando os Orleans e Bragança desembarcaram no Rio de Janeiro.

A história da viagem propriamente dita acaba de ganhar, pela primeira vez, detalhes com base em fontes primárias. Consultando os diários de bordo dos navios ingleses que participaram da jornada, o pesquisador Kenneth Light conseguiu dados inéditos, revelados no livro "A viagem marítima da família real: a transferência da corte portuguesa para o Brasil", que será lançado nesta sexta-feira (7/3) no Rio de Janeiro.

Segundo Light, antes de sua pesquisa, realizada durante dez anos, os relatos existentes sobre o traslado tinham como base o livro "A vinda da família real portuguesa para o Brasil", de 1810, do oficial britânico Thomas O' Neil, que por sua vez se baseava apenas em testemunhos.

"As informações de O'Neil eram incompletas. Ele acompanhou os navios até a saída do Tejo, mas ali foi enviado para a tomada de uma fortaleza e não participou da viagem", disse Light à Agência Fapesp.

O'Neil relatou em seu livro que, antes da partida, D. João recebeu a bordo o general Junot, comandante das tropas francesas que invadiram Lisboa. O encontro, segundo Light, jamais ocorreu. "Foi imaginação de O'Neil. Os registros mostram que a frota saiu na manhã do dia 29. Junot chegou às 4h da manhã do dia 30, mais de 20 horas depois da partida", afirmou.

Os diários de bordo também mostraram, segundo Light, que a viagem não foi uma fuga desesperada motivada pela chegada iminente de Napoleão. "Foi um projeto estratégico planejado minuciosamente por seis meses", disse.

Executivo aposentado, o pesquisador nascido no Brasil e educado na Inglaterra é membro da British Historical Society of Portugal e diretor da Sociedade de Amigos do Museu Imperial de Petrópolis. Em 1990, Light começou a se dedicar à pesquisa sobre a viagem da corte portuguesa.

"No início, eu buscava os diários de bordo dos navios portugueses em arquivos no Brasil e na Europa. Mas descobri que esses registros não existiam. Comecei então a buscar os diários dos 16 navios ingleses que bloqueavam o Tejo em 1807 e os encontrei, intactos, no arquivo geral da coroa inglesa", explicou.

Entre 1991 e 1995, Light transcreveu o conteúdo dos diários de bordo - ou "livros de quarto", no jargão marítimo. O resultado foram 40 volumes de 600 páginas cada. A redação em inglês do século 19, em linguagem técnica, representou um desafio, segundo o pesquisador.

"Precisei aprender como funcionava um navio da época, como se manobravam as velas, técnicas de navegação, quais eram os procedimentos de higiene e como era a alimentação. Muita coisa estava abreviada, como os nomes das mais de 30 velas de cada navio", disse.

Em 1995, doou os arquivos para algumas das principais bibliotecas do mundo e seu trabalho se tornou referência para pesquisa sobre a viagem marítima da família real e serviu de base para livros de outros historiadores. Light passou a ser convidado para palestras sobre o assunto em diversos países.

Em novembro de 2007, Light lançou, em Portugal, Transferência da capital e corte portuguesa para o Brasil: 1807-1821. A obra, cuja primeira edição está esgotada, traz a iconografia dos navios, mapas da viagem e os tratados que precipitaram a partida da família antes da chegada das tropas napoleônicas. A edição brasileira que sai agora é uma versão reduzida, sem ilustrações.

Segundo Light, os diários de bordo não trazem comentários políticos ou pessoais. É um relato estritamente técnico, mas bastante rico em detalhes: cada dia ocupa uma página e os acontecimentos eram registrados a cada hora.

Para produzir os livros, além dos diários de bordo o autor recorreu à correspondência trocada entre almirantes ingleses e representantes britânicos em Portugal, além do diário pessoal do comandante do esquadrão que mantinha o Tejo sob bloqueio, William Sidney Smith.

Mudança de perspectiva

O livro, segundo Light, pode ajudar os historiadores a reinterpretar alguns fatos. "Ao zarpar, os navios pegaram um vento sudeste, com o mar de través - o que significa uma situação muito adversa - e há relatos dizendo que houve terror, que os passageiros queriam voltar. Isso não aconteceu. Os portugueses tinham 300 anos de experiência marítima e não tiveram o menor problema com uma tempestade típica do inverno no Atlântico", apontou.

A expertise da navegação portuguesa fica provada pelos registros nos diários. As tripulações amarraram as vergas, tomaram as providências necessárias, viraram em direção à Groenlândia e, com as ondas batendo por trás, seguiram tranqüilamente. No terceiro dia o vento mudou e os barcos começaram a rumar para o sul. No quarto dia, passaram a latitude de Lisboa.

Eram 18 navios de guerra portugueses, 13 navios britânicos e 25 navios mercantes. No dia 5 de dezembro, parte do esquadrão britânico voltou a Lisboa e apenas quatro navios continuaram escoltando os portugueses até o Brasil. A decisão de passar pela Bahia, segundo Light, não foi forçada pela falta de água e comida, como se divulga.

"Os comandantes tomaram apenas decisões corretas. O capitão James Walker, do Bedford, um dos navios ingleses, registra que o navio entrou em Salvador com 75 toneladas de água e comida para mais dois meses e meio. A parada em Salvador se deu porque, a partir do dia 3 de janeiro, os navios ficaram por dez dias em uma calmaria que exasperava a população, depois de 54 dias no mar", disse.

Severamente castigados pelas sucessivas tormentas de inverno, que causaram avarias consideráveis, todos os navios chegaram ao seu destino, segundo Light. "Isso reflete a qualidade dos oficiais e das guarnições, assim como do projeto e da construção dos navios; a experiência de vários séculos navegando regularmente através dos oceanos, em condições de tempo variadas."

Retrato da chegada

Além da pesquisa e dos livros, Light contratou, em 1998, o pintor inglês Geoff Hunt, especialista em marinas, para retratar o momento da chegada da corte portuguesa ao Rio de Janeiro, às 15 horas do dia 7 de março. Durante um ano, Light forneceu informações minuciosas ao pintor.

"Cruzei os dados dos navios, que indicavam, nos pontos cardeais, pontos de referência de seu posicionamento na baía. Com aqueles dados, usei uma carta marítima moderna para traçar as linhas de direção para cada referência e consegui localizar o ponto exato onde pararam", disse.

Para confirmar o registro, Light alugou um barco e percorreu a baía de Guanabara com um aparelho de navegação GPS, alcançando pessoalmente a posição exata dos navios Marlborough, Príncipe Real, Afonso de Albuquerque, Medusa e Bedford. "Dali, fotografei tudo ao redor. Com essas informações o pintor construiu uma maquete do acontecimento e a pintura ficou pronta em dois meses", contou.

A tela de 1 metro por 45 centímetros faz parte da coleção pessoal de Light, mas foi emprestada ao Museu Histórico Nacional para exposição comemorativa que será aberta nesta sexta-feira (7/3), com presença dos presidentes do Brasil e de Portugal.

As comemorações pelos 200 anos da chegada da família real incluirão a reabertura da Igreja de Nossa Senhora do Carmo, no centro do Rio, totalmente restaurada, no sábado (8/3), em cerimônia que deve contar com a presença de descendentes da família real.

A Igreja, localizada no Paço Imperial, foi utilizada por D. João VI, desde sua chegada ao Brasil, em 1808, para assinalar momentos importantes da família real portuguesa. O local foi cenário da coroação do próprio D. João, assim como da aclamação de D. Pedro I e D. Pedro II como imperadores, e do batismo de príncipes, entre os quais a princesa Isabel.

Fonte: Agência Fapesp