Notícia

Plataforma 9 (Portugal)

5º Conferência Internacional "Queering the Afro-luso-brazilian studies"

Publicado em 19 março 2019

5th Queering the Afro-Luso-Brazilian Studies International Conference

3° Congresso Internacional Literatura e Gênero

17, 18 e 19 de Junho Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas - Universidade de São Paulo

June, 17th to 19th, 2019 - University of São Paulo - Brazil

Inscrições com Submissão de Trabalho: 01/04 a 15/05

Inscrições para Ouvintes: 01/04 a 12/06

APRESENTAÇÃO

Nos anos de 2016 e 2017, a UNESP (S. José do Rio Preto), organizou os congressos internacionais “Literatura e Gênero” que, em suas duas edições, contaram com apoios da FAPESP. Ambos os eventos, coordenados pela a Profª Drª Claudia Nigro, praticamente inéditos no âmbito das universidades paulistas, tiveram a presença massiva de pesquisadores internacionais e brasileiros e muito contribuiu para a divulgação e consequente consolidação, na área de Letras e Linguística, do amplo campo dos estudos de gênero (os gender studies).

Quase que ao mesmo tempo, entre 2015 e 2018, quatro colóquios internacionais denominados “Queering the Afro-Luso-Brazilian Studies", ocorridos em universidade da França, Suécia, Reino Unido e Portugal, propuseram uma revisão radical das literaturas e culturas de Língua Portuguesa com leituras inéditas ou revisões de manifestações culturais (des)orientadas pela Teoria Queer*. Esses colóquios reviveram o espírito dos encontros sobre “Literatura e homoerotismo", que tiveram lugar na Universidade Federal Fluminense, em Niterói (RJ), entre 1999 e 2001, e que resultaram na fundação da Associação Brasileira de Estudos da Homocultura (ABEH)**

As quatro conferências europeias, assim como as duas edições do Congresso Internacional de Literatura e Gênero deram novo fôlego aos estudos gênero e estudos queer, sobretudo, pela aproximação e reaproximação dos pesquisadores, pela intensa troca de experiências e conhecimento entre seus participantes, e por recolocarem em evidência os estudos literários, artísticos e culturais, áreas nas quais floresceram os estudos queer e de gênero.

Se em 1999, quando organizamos o primeiro encontro de pesquisadores intitulado “Literatura e Homoerotismo”, a área de Letras, no Brasil, encontrava-se num processo profundo de revisão conceitual e de sua atividade crítica na medida em que os estudos culturais, os estudos pós-coloniais e os estudos de gênero começavam a estabelecer tensões evidentes com nossa tradição acadêmica. Aquelas novas abordagens apontaram novos problemas dos quais emergiram novos objetos - o processo levou a uma profunda revisão teórica da área, da qual são testemunhos os congressos da ABRALIC de 1998 (Florianópolis, SC) e 2000 (Salvador, BA). Dessa maneira, o ano de 2019 marca duas décadas de uma longa jornada acadêmica, iniciada pela introdução de elementos considerados estranhos até então no âmbito dos estudos literários. Estranhos porque invisíveis, estranhos porque marginais, estranhos porque abjetos.

Invisibilidade, marginalidade, abjeção são conceitos, porém, largamente difundidos, discutidos e problematizados hoje pela crítica, que compreende não apenas a sua existência e viabilidade como objetos de investigação, mas porque neles reconhece a sua potencialidade crítica para uma sociedade que se deseja profundamente democrática. Especialmente em tempos em que setores mais conservadores levantam suas vozes contra o que denominam, falaciosamente, como “ideologia de gênero”.

Além disso, o evento será realizado em homenagem ao escritor e pesquisador João Silvério Trevisan, pelo pioneirismo e atualidade de sua obra Devassos no paraíso, cuja quarta edição foi publicada em 2018.

QUEERIZANDO O CÂNONE AFRO- LUSO -BRASILEIRO

A escolha deste tema está vinculada à ideia de que os Estudos Queer, e seus desdobramentos, são uma importante ferramenta teórica-metodológica para o campo literário Afro-Luso-Brasileiro. Nesse sentido, o tema ao mesmo tempo em que permite uma reavaliação dos quase vinte anos de recepção do Estudos Queer nos contextos Afro-Luso-Brasileiros, aposta também na potencialidade crítica dessa corrente teórica. Nesse cenário, estamos interessados em discutir o cânone, mas também a crítica, a teoria e a historiografia, a partir das suas hierarquias, das suas naturalizações e dos seus jogos de visibilidade e invisibilidade, com base em uma perspectiva interdisciplinar, pontuada também pelos Estudos subalternos e decoloniais.

A proposta do tema que reunirá os dois eventos, “Queerizando o cânone”, propõe a necessária problematização dos cânones das culturas de Língua Portuguesa por compreender a necessidade de se estabelecer que antes dos objetos, é o olhar problematizador que desestabiliza a sua condição (no caso, canônica), atualizando, assim, sentidos que se encontravam “ocultos” e “silenciados” por essa mesma condição canônica do objeto. Num tempo em que as fórmulas gastas do conservadorismo procuram recolocar o cânone em sua condição original, sentidos dissonantes são mais do que necessários para promoverem debates, questionamentos e revisões permanentes de quaisquer ideias, noções ou conceitos cristalizados, especialmente em se tratando de gênero e sexualidade na produção cultural.

“Queerizar" é verbo, portanto, ação, de relativizar olhares pré-estabelecidos sobre objetos por colocá-los em deriva, desestabilizando-os dos lugares que confortavelmente ocupam na cultura. Queerizar o cânone literário Afro-Luso-Brasileiro, portanto, é não só desestabilizar o cânone literário, relativizando os lugares que determinadas obras ocupam na cultura, revendo posições de visibilidade e invisibilidade, mas é também contaminar a crítica, a teoria e a historiografia literária com os estudos queer, fazendo-as fracassar naquilo que têm de autoritária, colonizadora, binária e patologizante, no que se refere não só aos gêneros e sexualidades, mas também a outros marcadores sociais da diferença. Assim, o objetivo da 5ª Conferência Internacional “Queering the Afro-Luso-Brazilian Studies” e do 3º Congresso Internacional de Literatura e Gênero é aprofundar discussões e apresentar perspectivas que mostrem na arte, na crítica e na historiografia essas mesmas discussões, favorecendo a exposição de pontos de vista diversos, até mesmo antagônicos. Assim, a reunião dos dois eventos permitirá a avaliação e a definitiva consolidação dos estudos de gênero e dos estudos queer na área dos estudos literários.

Diante de um cenário político polarizado sobre a importância dos Estudos de Gênero e Sexualidade, a realização do evento, com a participação de pesquisadores de diversos países, é uma oportunidade não só de reavaliação do campo dos estudos de gênero e sexualidade, mas também do próprio campo dos estudos literários, com o objetivo de dar respostas aos questionamentos que uma pequena parte da sociedade tem feito a partir das equivocadas discussões sobre "Ideologia de Gênero".

INSCRIÇÕES E MAIS INFORMAÇÕES

https://sites.google.com/a/usp.br/queeringcanon/home

* O termo “queer", como se sabe, oriundo da Língua Inglesa, foi incorporado ao vocabulário acadêmico das diversas línguas ocidentais na medida em que a teoria queer se disseminou pela Europa e pela América Latina. Com efeito, contrariamente à identidade gay, “a identidade queer não precisa de se basear numa verdade, qualquer que seja, ou numa realidade estável. Como o indica a própria palavra, queer não designa nenhuma espécie natural, nem remete para nenhum objeto determinado; adquire o seu sentido na sua relação com a norma. Queer designa assim tudo o que não condiz com o normal, o dominante, o legítimo. […] portanto, o queer não delimita uma positividade, mas uma posição em relação ao normativo" (HALPERIN, 2000, p. 75).

** Em novembro de 2019, a ABEH, associação científica ímpar no mundo, reuniu em Fortaleza (CE), na Universidade Federal do Ceará, centenas de pesquisadores dedicados aos estudos da diversidade sexual, como de costume, em seu nono congresso consecutivo. Desde 2004, o número de participantes dos congressos da ABEH alcançou um patamar que resulta num significativo e amplo quadro da pesquisa acadêmica, onde os estudos literários, artísticos e culturais, seu berço, passaram a ocupar um pequeno e acanhado lugar, frente às urgências sociais e políticas nacionais e internacionais. Vale assinalar que, em 2008, a FAPESP apoiou a realização do IV Congresso Internacional da ABEH, na Universidade de São Paulo. De igual maneira, o tradicional congresso “Fazendo Gênero”, realizado pela Universidade Federal de Santa Catarina, e cujo berço também foram os estudos literários e culturais, extrapolou seu foco original e hoje abrange todas áreas do conhecimento, das ciências da vida às ciências humanas e sociais.