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59ª Reunião Anual da SBPC: Evando Mirra propõe um mutirão para colocar a inovação na agenda brasileira

Publicado em 11 julho 2007

Por Flamínio Araripe escreve para o 'JC e-mail':

Debate visa a ressonância do tema no encontro por sua relevância para o futuro do país


O diretor de Inovação da ABDI, Evando Mirra, na conferência "A Inovação e o Desenho do Futuro", disse nesta terça-feira na Reunião Anual que estratégias inovadoras podem ser aprendidas na escola". Para ensinar os jovens, que não têm o peso da inércia gerada pela postura conservadora, vai ser preciso envolver as ciências humanas - um mutirão, ele propõe.

"O ato de criar se adquire socialmente. Se se promove essa cultura, ela é educadora", afirma Evando Mirra. A introdução do tema na Reunião Anual veio de uma tomada de decisão da SBPC de ampliar a agenda de consideração às questões de ciência e tecnologia, incorporando a discussão da inovação, que não aparecia explicitamente nos eventos anteriores, explica.

Mirra informou que a ABDI teve a parceria de Marcos Formiga, assessor da presidência da CNI, na montagem de parte do programa de uma série de mesas-redondas, algumas com empresários da Amazônia ou pesquisadores, ao trazer as visões nacionais de como o problema é visto na indústria. "Este diálogo tem de ser alimentado", afirmou.

Conforme Mirra, o primeiro produto da presença dos debates sobre inovação na Reunião da SBPC é a problematização do tema. "Essa é uma aventura controvertida que exige cuidado, consciência de que precisa ser encaminhada com prudência para que se oriente com eficácia para a transformação produtiva que desejamos". O debate visa a ressonância do tema na SBPC que Mirra diz acreditar ser relevante para o futuro do país.

Além das palestras e discussões, Mirra observa que ocorre na Reunião em paralelo a Expotec, mostra de empresas inovadoras indicadas pela CNI-ABDI. "A idéia é colocar mais vozes, maior volume de informações para o público com espaço para o contraditório". Outro objetivo do enfoque dado à inovação no evento, segundo ele, é o de tentar ajudar a dissipar o que é fruto de uma história que às vezes tem um componente de atraso, um esforço para atualizar esta visão.

Evando Mirra define inovação como a "introdução de novos processos, produtos e serviços no mercado e na prática social para a solução de problemas cruciais que temos. Dito de outro modo: o conhecimento levado ao mercado e à prática social. Inovações constituem resultados de processos coletivos de trabalho, que têm foco na empresa [mercado] ou no agente social. É um processo essencialmente coletivo".

Como um exemplo, Evando Mirra cita a solução do dilema do ancoramento das plataformas de petróleo da Petrobrás feito com correntes de aço. Nas profundidades de mais de 800 metros as correntes pesavam em excesso a ponto de ameaçar arrastar para o fundo a estrutura da superfície. A solução foi encontrada numa empresa gaúcha, a Cordoaria São Leopoldo (CSL), que pesquisava fibras de poliéster de alto desempenho para fabricação de tênis, e desenvolvida em colaboração com o Centro de Pesquisas da Petrobrás (Cenpes), CSL, FURG e UFRGS.

A inovação possibilitou avançar na profundidade. A plataforma de Marlim chegou a 1.027 m em 1994; a da Marlim Sul a 1.709 m em 1997 e a de Roncador, em 1999, atingiu os 1.853 metros. Vieram em seguida as plataformas Roncador em 2000 com 1.877 m e outra com 1.886 em 2001. O novo sistema de ancoramento hoje é usado em explorações de petróleo também no Golfo do México e Angola, disse Mirra.

A inovação, segundo o diretor da ABDI, adicionou características vantajosas em aspectos da carga-alongamento das fibras, resistência à fadiga dos cabos, sistemas de terminação, taxa de hidrólise, corrosão em águas profundas, taxa de fluência, resistência à ruptura por fluência, histerese, software dedicado e custo competitivo com o aço. A Petrobrás avançou também na robótica submarina, em que o Brasil é líder mundial.

Para Mirra, o caso citado é também um exemplo dos resultados da conjugação do Cenpes com centros de pesquisa no país inteiro numa rede com Universidades. A rede congrega 129 grupos de pesquisa, com os quais a Petrobrás já assinou mais de 3.600 contratos. "A inovação não se faz sozinho. É uma estratégia coletiva construída de forma conjunta", lembra. A rede concentra competências de engenheiros de todas as áreas, matemáticos, geólogos, pessoal da área de meio ambiente e profissionais de outras formações num projeto nacional e multitransdisciplinar.

A inovação responde por cerca de 50% do crescimento econômico de longo prazo dos países industrializados, cita Mirra com base em estudo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). "As universidades têm participação estratégica nesse espaço: geração de idéias; formação de recursos humanos qualificados; parcerias; motivações e projeto acadêmico. Investimentos crescentes em conhecimento são a chave do desempenho econômico e de ganhos no campo social, e estão associados à emergência de uma sociedade mais interconectada (networked), onde criação e aplicação do conhecimento tornam-se cada vez mais colaborativos", acrescenta.

"A forma tradicional de inovação tem evolução lenta, conhecimentos tácitos, inventividade prática e acaso", assinala Evando Mirra. Por sua vez, "a nova dinâmica da inovação é atividade socialmente organizada, que reúne conhecimentos tácitos e conhecimentos científicos, e possui estruturação formalmente análoga à pesquisa científica (modelos, hipóteses, testes experimentais...)".

Segundo o diretor da ABDI, a inovação é um estado de espírito, uma forma de olhar as coisas e dizer que são mutáveis, o que vale para qualquer setor ou ambiente. "A inovação coloca em movimento uma multiplicidade de processos econômicos, sociais e culturais. Desencadeia aventura humana rica e multifacetada, gera riqueza, exige níveis mais elevados de educação e qualificação de recursos humanos, promove transformações culturais em que as ressonâncias são tão importantes quanto a parte mais visível".

O conferencista ilustra a sua visão com a poetisa portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen: "E sobre a areia sobre a cal e sobre a pedra escrevo: nesta manhã eu recomeço o mundo". De Charles Baudelaire, cita: "no fundo do desconhecido para encontrar o novo!", do poema Fleurs du Mal, ao relacionar mudanças de cultura com inovação e a percepção de um sentido positivo do tempo.

Recente pesquisa do Boston Consulting Group, publicada na BusinessWeek, aponta as empresas mais inovadoras. A lista é liderada pela Apple, seguida da Google, Toyota, General Electric, Procter & Gamble, Microsoft, 3M, Walt Disney Co., IBM, Sony, Wal-Mart Stores e Honda Motor.

As duas primeiras, observa Mirra, pertencem à área das Tecnologias da Informação e da Comunicação (TICs), que são inovadoras e permeiam todo o espaço tecnológico. A Apple com o I-phone avança na convergência digital ao fundir as funções de palm, celular, som e vídeo. A Google faz a reinvenção da publicidade mesclada a sistema de busca na Internet.

A pesquisa atribui o desempenho da General Electric a "oportunidades de crescimento focadas nos mercados emergentes da tecnologia verde (green tech)". O destaque da Procter & Gamble provém do conceito de "Connect & Develop, estratégia para os novos tempos: com a agregação de soluções criativas externas, P&G está mapeando as forças inovadoras de todas as regiões do mundo". Enquanto a Petrobras rastreia competências locais na sua rede, a P&G procura trabalhar em escala planetária, compara Mirra.

A cultura inovadora no Brasil ainda é incipiente, assinala o diretor da ABDI com dados da pesquisa do Ipea, Inovação na Indústria Brasileira com abrangência para os anos 1996-2002. O universo da pesquisa cobre 72.000 firmas industriais, das quais 1.199 inovam e diferenciam produto (1,7%). Outras 15.311 empresas (21,3%) são especializadas em produtos padronizados e 55.486 são empresas (77,1%) que não diferenciam a inovação e têm produtividade menor.

Das três categorias, as empresas que inovam e diferenciam produtos puxam a escolaridade para cima, disse Mirra, pois concentram pessoas com 9,13 anos de estudos em média; são as que melhor pagam a mão-de-obra, em média R$ 1.255 e onde a taxa média de permanência da equipe é maior, 54,09 meses. São dados publicados em 2005 pelo Ipea, em "Inovações, padrões tecnológicos e desempenho das firmas industriais brasileiras".

Por sua vez, as empresas que se especializam em produtos padronizados pagam R$ 749 mensais, têm uma taxa de escolaridade de 7,64 anos e a permanência média da mão-de-obra é de 43,9 meses. Na empresas que não diferenciam produtos os salários são de R$ 431, a escolaridade é de 6,89 anos e o tempo no emprego de 35,41 meses, também menor.

Pesquisa e desenvolvimento (P&D) criaram no Brasil uma agricultura tropical competitiva, tornaram o cerrado ideal para o plantio de soja, tornaram o país líder em biomassa energética, e transformaram Petrolina em prodígio horticultural, responsável pela quase totalidade exportada de uva e manga, disse Mirra. Outro exemplo citado é o do Ceará que exporta rosas para a Holanda e Nova Iorque. Em conseqüência da P&D, tem crescido pouco a área plantada com grãos - algodão, aveia, amendoim, arroz, soja, centeio, cevada, feijão, trigo, milho, girassol — em comparação com a produção que tem crescido muito mais até a safra de 2002-2003, o que demonstra crescimento da produtividade.

A Análise Computacional da Dinâmica dos Fluídos, projeto da Embraer apoiado pela Fapesp (PICTA) que envolve oito instituições e três empresas é destacado por Mirra entre outros esforços de inovação. Ele cita ainda as inovações da Marcopolo, que apostou pesadamente em ciência e tecnologia, hoje está implantada em 70 países e consegui vencer a concorrência mundial e se tornar fornecedora de ônibus para os peregrinos que vão a Meca.

Cerca de 3 milhões de islâmicos fazem a pé ou camelo o caminho a Meca uma vez por ano. A religião não permite que no trajeto nada os separe do contato com o céu. Diante da escassez de camelos, a Marcopolo criou o ônibus sem teto. "Para inovar é preciso entender os desejos, sonhos e necessidades", diz Evando Mirra.

Santa Rita do Sapucaí (MG) é exemplo de sucesso citado por Mirra. O município reúne 120 empreendimentos de base tecnológica das áreas de eletrônica, informática, telecomunicações, têxtil e administração, que empregam 7 mil pessoas e faturaram R$ 680 milhões em 2006. Sinhá Moreira, esposa do ex-embaixador no Japão nos anos 20, ao voltar para o Brasil conseguiu apoio do então deputado Juscelino Kubistcheck para criar em Santa Rita uma Escola Técnica Eletro-Eletrônica, hoje Inatel, que puxou o desenvolvimento local.

Conforme Mirra, o eixo da organização jurídica está complicado para o ambiente da inovação. Todavia, o quadro geral é favorável. "Mudaram as nossas possibilidades. Existe um grande esforço coletivo de articulação e mobilização das competências e das vontades. Estamos construindo um acervo notável de realizações e demonstramos que sabemos inovar. Atingimos um estágio inédito de competência científico-tecnológica e dispomos de massa crítica para sonhar mais alto. A grande transformação está em curso — e seu sucesso está ao nosso alcance!", exclama.

Inovação no atual momento no Brasil tem componentes de incertezas e há de ser conduzida com cuidados, segundo Mirra. Ele recomenda estimular a controvérsia e o contraditório no tratamento do tema. Propõe incorporar nas escolhas estratégicas e nos processos decisórios as visões de sociedade e a opinião pública. Aconselha a lidar com a complexidade das interações locais, nacionais e internacionais com instituições de ensino e pesquisa, governo, empresas e indivíduos.

Mirra prega ainda o fortalecimento da colaboração - formação de redes e aceleração dos fluxos de conhecimento entre diferentes agentes. É o que chama de multidisciplinaridade e transdisciplinaridade, que contribuem para abrir esses processos como um fato social total, conceitua, com base em Marcel Mauss.