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59ª Reunião Anual da SBPC: Críticas aos computadores de US$ 100

Publicado em 16 julho 2007

Pesquisadores criticam falta de proposta educacional nos projetos como o da One Laptop Per Child. "A única proposta é que um computador para cada criança automaticamente permitirá um nível de ensino melhor", diz Valdemar Setzer, do IME-USP

Thiago Romero escreve de Belém para a "Agência Fapesp":

Responda sim ou não: o ser humano é uma máquina? O teste é feito há anos pelo professor titular do Instituto de Matemática e Estatística da Universidade de São Paulo (IME-USP) Valdemar Setzer em suas apresentações em congressos científicos, e não foi diferente na conferência na Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, em Belém.

O resultado é praticamente sempre o mesmo: 60% das pessoas dizem que o ser humano é uma máquina, o que seria uma concepção errônea. "Diferentemente dos humanos, toda máquina foi projetada e construída. Não existem valores como moral ou dignidade na máquina", disse Setzer em conferência na tarde desta terça-feira (10/7).

Setzer fez a pesquisa no auditório para ilustrar suas críticas à ausência de uma proposta educacional bem definida nos projetos dos computadores de US$ 100, especialmente no da organização não-governamental One Laptop Per Child, liderada por Nicholas Negroponte, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos.

"A única 'proposta educacional' desse projeto é que um computador para cada criança automaticamente permitirá um nível de ensino melhor", disse. Mas, segundo Setzer, ocorre justamente o contrário, "uma vez que o computador oferece uma educação mecanizada que pode ser prejudicial à formação dos alunos".

"Os computadores são máquinas que executam tarefas matemáticas e, por isso, forçam o usuário a ter pensamentos restritos às funções que o software executa, inibindo o poder da imaginação e da criatividade e também contribuindo para intelectualizar as crianças de maneira precoce", afirmou.

Apesar de ser a favor da inclusão digital, Setzer apontou que isso não ocorrerá sem profissionais que façam a intermediação do conhecimento. "Sou totalmente contra o uso de computadores na educação, pelo menos até o ensino médio. Estudos mostram que o primeiro contato dos indivíduos com computadores deve ocorrer a partir dos 17 anos, com exceção de crianças com deficiências físicas que não conseguem segurar um lápis, por exemplo."

Para ele, induzir uma criança a mexer em computadores, seja no lar ou na escola, é parecido com situações em que pais "forçam" seus filhos a aprender a caminhar em andadores.

"Como ainda não tem força suficiente, a criança não só não anda direito como também pode desenvolver problemas futuros na formação dos músculos. Por que acelerar um processo que ocorrerá naturalmente? Da mesma forma, permitir o uso livre de computadores por crianças pode ser considerado um 'andador mental' que força a criança a pensar de uma maneira que ela ainda não está preparada", disse.


Acesso em momentos distintos

Fredric Michael Litto, presidente da Associação Brasileira de Educação a Distância (Abed) e coordenador científico da Escola do Futuro da USP, ouviu da platéia as longas críticas de Setzer e, na seqüência, fez questão de participar do debate.

Para ele, os computadores devem ser acessados "a partir do momento em que a criança consiga alcançar o teclado". "Assim como as crianças são diferentes, têm impressões digitais, timbres de voz e organização dos neurônios diferentes, cada uma deve começar a interagir com computadores em momentos distintos", defendeu.

Os computadores de US$ 100, segundo Litto, independentemente de qual modelo seja adotado no Brasil, certamente chegarão com mais abundância nas mãos das crianças. "Mas, realmente, o One Laptop Per Child prioriza o hardware e é carente de um plano pedagógico de treinamento de professores e alunos para utilização das máquinas. Esse é um ponto fraco que realmente nos preocupa nesse tipo de projeto", disse Litto "Agência Fapesp".

Cerca de 25% das escolas públicas no Brasil e perto de 60% das particulares contam com computadores, segundo Litto. "Embora tenhamos argumentos suficientes para criticar os projetos de máquinas de US$ 100, espero que essa iniciativa seja implementada no Brasil acompanhada de critérios para a avaliação de sua eficácia. Mas o importante é não termos expectativas excessivas", apontou.

Litto lembrou dos R$ 5 bilhões disponíveis no Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (Fust), mantido pela indústria de telecomunicações, que, por lei, tem que destinar uma porcentagem de seus lucros para o fundo, cujos recursos deverão servir para equipar escolas com computadores e desenvolver softwares pedagógicos. 

"O dinheiro do Fust ainda precisa de liberação e deverá ser usado para democratizar o acesso às telecomunicações no Brasil. Se o presidente da República estiver mesmo disposto a colocar mais computadores nas escolas, conforme o prometido, esse dinheiro é a melhor forma de fazer isso. O Fust deve ser usado também para capacitar professores e para criar medidas de incentivo para a indústria nacional, que poderia começar a produzir computadores em grande escala", destacou o presidente da Abed.

(Agência Fapesp, 11/7)