Notícia

Jornal Primeira Página

55% das vítimas de morte violenta usaram álcool ou outra droga

Publicado em 21 outubro 2018

Um grupo da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) publicou os resultados de uma pesquisa a respeito da associação entre o consumo de álcool e drogas com a ocorrência de mortes violentas. O trabalho coloca em números os dados dessa relação, no caso, na cidade de São Paulo. A descoberta é que o consumo de álcool ou de pelo menos um tipo de droga guarda associação com mais da metade (55%) das mortes violentas ocorridas na capital paulista entre 2014 e 2015.

O trabalho é resultado do pós-doutorado do epidemiologista Gabriel Andreuccetti, com a supervisão do professor Heráclito Barbosa de Carvalho, do Departamento de Medicina Preventiva da FMUSP, e em colaboração com o Departamento de Medicina Legal da mesma universidade, com a University of California, Berkeley, e apoio do Instituto Médico-Legal (IML) de São Paulo. O artigo foi publicado no periódico Injury e contou com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Para obter dados para o levantamento, Andreuccetti empregou um método de amostragem probabilística usando a cidade de São Paulo como população-alvo.

“Os casos amostrados eram vítimas adultas, feridas fatalmente, que tiveram causa de morte súbita, inesperada, violenta ou de outra forma não natural, e que deram entrada nas principais instalações médicas forenses que atendem toda a cidade e seus 96 distritos”, disse à Agência Fapesp.

Segundo a legislação, as vítimas de morte súbita, inesperada ou violenta devem obrigatoriamente ser submetidas a um procedimento de autópsia pelas Equipes de Perícias Médico-Legais (EPML). Anualmente, ocorrem em São Paulo cerca de sete mil mortes que se enquadram nessa classificação. A maioria é composta de homicídios (26%), seguida pelos óbitos relacionados ao trânsito (20%) e por suicídios (10%).

O trabalho de levantamento de casos de mortes violentas ocorreu entre junho de 2014 e dezembro de 2015. Para obter uma amostra representativa da cidade, Andreuccetti coletou amostras de sangue de cadáveres durante autópsias pelas diversas EPML da cidade, em diferentes dias e horários da semana, ao longo de 19 meses.

Vítimas que receberam seis ou mais horas de tratamento médico devido ao evento de lesão ou que sobreviveram pelo mesmo período antes da morte foram excluídas da amostra.

“Há um grande número de casos de pessoas que deram entrada no hospital e vão pa rar no Instituto Médico-Legal (IML). Em muitos destes casos, a lesão fatal ocorreu de forma violenta ou súbita, sendo que a vítima pode ter estado sob efeito de drogas no momento do acidente, crime ou suicídio. Mas, devido à internação por mais de seis horas, os vestígios de álcool e drogas no sangue podem sofrer influência após o evento traumático. Esses casos foram excluídos do levantamento”, disse Andreuccetti. O resultado final do levantamento chegou a uma amostra com 365 mortes, todas violentas, súbitas ou inesperadas, que deram entrada no IML. A amostra reuniu 104 homicídios (28,5% do total), 56 vítimas de acidentes de trânsito (ou 15,3%), 44 suicídios (12,1%), 26 quedas (7,1%) e 21 casos de envenenamento ou intoxicação (5,8%). Em 114 casos (31,2%), a morte súbita ou violenta ocorreu de formas que não as anteriores.

“Devido a diversas ações governamentais no começo da década (2010), a mortalidade no trânsito paulistano caiu consideravelmente, junto com a mortalidade por homicídios que vem caindo desde a década passada. Hoje a taxa de mortes por homicídios é maior do que no trânsito. Mas São Paulo é um caso atípico. No Brasil como um todo, essas flutuações foram bem menores, e continua-se morrendo muito por essas duas causas”, disse Andreuccetti.