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52% da população indígena adulta do MT tem diabetes ou pré-diabetes, aponta pesquisa

Publicado em 13 maio 2011

Mudanças alimentares e o abandono dos alimentos tradicionais como o feijão, a batata, o milho, a abóbora, o cará, a mandioca e as carnes de caça estão acarretando uma alteração drástica na saúde do índio brasileiro. O que antes era raridade nessa população, hoje é cada vez mais comum: crianças e adultos obesos, catarata em adolescentes e amputações de membros. Tudo por conta da epidemia de obesidade e de diabetes mellitus que se espalha de forma alarmante entre as tribos espalhadas por todo o país.

Um estudo realizado pelo professor da disciplina de Endocrinologia da UNIFESP, João Paulo Botelho Vieira Filho, aponta que 21% da população indígena adulta Xavante do Mato Grosso é diabética e outros 31% correm o risco de também se tornarem doentes caso não mudem os hábitos alimentares trazidos pelo homem branco. "É muito comum vermos os índios ingerirem refrigerantes em larga escala", afirma. "As cestas básicas fornecidas pelo próprio governo contém o maior inimigo dessa população: o açúcar cristalizado".

Os dados foram colhidos de duas comunidades indígenas Xavante (São Marcos e Sangradouro) localizadas entre Cuiabá e Barra do Garças, durante visita do pesquisador ocorrida entre os dias 15 e 24 de abril, juntamente com professores da Universidade de São Paulo (USP), Laércio Franco e Amaury Dal Fabbro. No total foram avaliados cerca de mil índios adultos. Também participam da pesquisa Regina Moíses e Luciana Franco (ambas da UNIFESP). O estudo tem aprovação da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP) e auxílio CNPq (Sangradouro) e FAPESP (São Marcos).

Alteração genética

De acordo com João Botelho — pioneiro na descrição da incidência de diabetes mellitus entre os índios brasileiros, durante cerca de 30 anos de estudo da saúde indígena —, o açúcar cristalizado e a sacarose, constantes na alimentação do homem branco, são altamente tóxicas para índios. "A população indígena, tanto do Brasil quanto do México e EUA, é geneticamente propensa a obesidade e ao diabetes tipo 2 quando ingere açúcar cristalizado, por possuir o gene ABCA1, uma variante que faz com que o organismo acumule gordura".

O gene ABCA1 foi descrito recentemente e publicado na revista científica Human Molecular Genetics no ano passado por Botelho e Regina Santiago Moisés (ambos da Unifesp), juntamente com um grupo de pesquisadores internacionais.

O pesquisador explica que essa alteração genética era, há milênios, benéfica para a sobrevivência dessa população, exposta a períodos de abundância, seguidos de penúria ou pobreza alimentar, nos quais era preciso locomover-se à procura de alimentos e acumular energia. "Entretanto, a introdução de alimentos industrializados como queijos gordos, açúcar refinado e até mesmo refrigerante e a menor atividade física têm se tornado uma bomba relógio no organismo dos povos indígenas", afirma Botelho. "Está se tornando frequente encontrarmos índios com mais de 100 quilos ou até mesmo alguns com obesidade mórbida, uma vez que sua genética faz com que eles retenham 70% da gordura acumulada no organismo".

Atualmente a incidência de diabetes mellitus na população branca é de dois para cada mil habitantes/ano. Entre os índios essa proporção é absurdamente maior e atinge mais de 30 casos para cada mil habitantes/ano. "As populações brasileira, mexicana e andina, com miscigenação de brancos e índios, também são afetadas e apresentam maior tendência a obesidade e ao diabetes", explica Botelho. "É extremamente importante incluir a educação alimentar nas escolas indígenas para ajudá-los a resgatar a dieta tradicional e mudar o quadro alarmante que assola essa população que não responde ao tratamento medicamentoso oral, mas apenas à insulina injetável".

João Paulo Botelho Vieira Filho pesquisa a saúde dos índios do Mato Grosso desde 1975. Confira abaixo a cronologia do diabetes entre a população indígena:

1975/1976 - As tribos Suruí, Xikrin, Gaviões e Xavante eram delgados e mantinham a dieta tradicional, sem ocorrência de diabetes conforme exames de glicemia na época.

1977 - O Prof. João Paulo foi o primeiro e descrever a endemia de diabetes mellitus tipo 2 no Brasil entre os Caripunas e Palikur, do Amapá. O pesquisador descreveu aumento de peso, sedentarismo, mudança nos hábitos alimentares e amputações devido à doença.

1983 - Os exames de hemoglobina glicosilada (HbA1), marcador de glicemia dos últimos 3 meses, dos Xavante não detectou a doença.

1996 - Detecção de cinco portadores de diabetes mellitus na tribo de Sangradouro (MT) e, seis, em São Marcos (MT).

2008 - O pesquisador descreveu o problema à Secretaria Nacional de Segurança Alimentar e Nuticional, ligado ao Departamento de Projetos Especiais do Ministério Social e Combate à Fome, e solicitou o envio de vídeos sobre educação alimentar e prática de atividade física ao local. Entretanto, o pedido não pôde ser atendido.

2011 - Entre os 351 índios de Sangradouro (MT), a prevalência do diabetes foi de 21% e, de pré-diabetes, 31%. Obesidade foi verificada em 44,7%; sobrepeso, 38%; hipertensão arterial, 12,5%; dislipidemia, 84%; e amputações. Entre os 500 índios de São Marcos (MT), 40% têm diabetes; 55%, são pré-diabéticos, necessidade de amputações de membros, mudança alimentar e maior grau de sedentarismo e obesidade.