Notícia

Metalurgia e Materiais

50 anos de P&D

Publicado em 01 setembro 2011

Ao presidir, em maio deste ano, a cerimônia que marcou o início das comemorações dos 50 anos da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), o seu presidente Celso Lafer, fez uma reflexão sobre a contribuição da entidade ao desenvolvimento da pesquisa, do Estado País. Nesta entrevista exclusiva à revista Metalurgia, Materiais & Mineração, ele destaca algumas iniciativas da entidade e diz que a universidade continua sendo a maior responsável pela produção do conhecimento no Brasil, lembrando que oito instituições respondem por dois terços dos artigos científicos publicados em periódicos internacionais. Celso Lafer também ressalta a importância da pesquisa para a inovação e informa que a Fapesp desenvolve parcerias nesse sentido com grandes empresas nacionais e internacionais, como Braskem, Embraer, Vale e Microsoft. Nesse último caso, segundo ele, o foco é a troca de experiências entre pesquisadores brasileiros e estrangeiros.

Revista Metalurgia, Materiais & Mineração O Brasil de hoje é bem diferente do País que existia quando a Fapesp foi criada. O que mudou em termos de pesquisa e desenvolvimento?

Celso Lafer A criação da Fapesp aconteceu, formalmente, em 1960, mas o seu funcionamento efetivo começou em 1962. Contudo, a instituição fora prevista já na Constituição Estadual de 1947, fruto da iniciativa de professores da USP e do IPT. A sua origem está vinculada aos fundos universitários de pesquisa criados para lidar com os desafios da época da guerra. Inicialmente, a Constituição previa a transferência de 0,5% do total da receita tributária do Estado. Posteriormente, esse percentual foi elevado para 1"%" pela Constituição de 1989, beneficiando os fundos de pesquisa para atender às demandas levantadas pelos pesquisadores. Já naquela época, tivemos iniciativas bem sucedidas, em termos de pesquisa, como é o caso de uma no campo cítrico que resolveu um problema sério da cultura paulista. Tivemos outras pesquisas que resultaram, igualmente, em aplicações importantes, como a biodiversidade, um tema atual. Com isso, a pesquisa ajudou a definir e melhorar o zoneamento agrícola do Estado de São Paulo, ou seja, onde se pode plantar cana de açúcar.

Qual tem sido a contribuição da instituição para o desenvolvimento da pesquisa e desenvolvimento no Estado e no Brasil?

Estão em andamento dois grandes programas de pesquisa e desenvolvimento focados na melhoria da competividade. Um deles, Pareceria para Inovação Tecnológica (Pite), foi lançado em 1995 pela Fapesp com uma dotação de R$ 19,5 milhões. A partir de 2002, foi criada uma segunda vertente desse programa que é o Pite Convênio. A modalidade permite que a parceria se viabilize com uma única empresa, por meio de acordo de cooperação. Ele estabelece, por exemplo, que o projeto a ser beneficiado seja tanto de interesse da pesquisa cientifica quanto da empresa, com foco em inovação. Temos, também, a preocupação em estimular o desenvolvimento e a inovação da pequena empresa, que tem um papel importante no desenvolvimento do País. Trata-se do Programa de Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (Pipe), que está em vigor desde 1997.

O senhor poderia citar algumas empresas beneficiadas por esses programas? Quanto já foi investido, por exemplo, no programa voltado para as pequenas empresas?

Começando pelo Pipe, é importante ressaltar que, desde o início, em 1997, a média de aprovação de projetos aproxima-se de dois por semana. Os números demonstram também que foram investidos R$ 195,6 milhões nesse programa até junho de 2011. Tratando-se de pesquisa e desenvolvimento, o valor é significativo. Em relação ao Pite, cujo montante de investimento já referimos, é uma modalidade que contempla projetos desenvolvidos entre empresas e pesquisadores, mas que tenham partido dos pesquisadores. Temos aqui empresas grandes que atuam conosco nessas parcerias. Podemos citar, a Braskem e a Vale, que são bem conhecidas no mercado. Como a Fapesp analisa o impacto desses programas no desenvolvimento do País, considerando-se principalmente a questão da competitividade? Só para citar um dado, na área de pesquisa inovativa para pequenas empresas, por exemplo, aprovamos cerca de 1.300 projetos até o momento. A média de aprovação, como já falamos, é de dois projetos por semana. Em termos de resultado para as empresas, o valor é muito significativo. Os dados disponíveis apontam que o retorno alcança aproximadamente 11 vezes o valor investido pela Fapesp. E considerando-se alguns tipos de problemas enfrentados pelos projetos, desafios etc, o retorno tem se mostrado crescente. O programa aplica--se a ideias que possam se transformar em projeto e que necessitam, por exemplo, de um laboratório de testes. Nós aprovamos o projeto e financiamos essa infraestrutura. Não financiamos capital de giro, mas contribuímos para estimular a cultura de inovação permanente, sem exigir contrapartida.

Que outras inciativas foram financiadas pela entidade e quais foram os setores beneficiados?

A julgar pelo nosso portfólio de projetos, a Fapesp tem tido uma atuação muito variada, cobrindo vários setores onde a pesquisa e o desenvolvimento são cruciais para nossa competividade. Podemos destacar uma parceria com a Embraer, envolvendo vários projetos ligados ao desenvolvimento da engenharia aeronáutica, que chega a um investimento de US$ 2,8 milhões. Trata-se do Programa de Inovação em Ciência e Tecnologia Aeroespacial (Pictea). Os projetos já desenvolvidos foram contemplados com financiamento nos moldes do Pite. Um desses projetos envolveu o desenvolvimento de tecnologia buscando criar um novo layout da aeronave, ou seja, mexer no desenho do avião. O desafio era desenvolver um avião que pudesse pousar em uma pista molhada, sem comprometer os requisitos de segurança. Traduzindo melhor, o avião deveria pousar na pista molhada sem o risco de a água entrar nas turbinas da aeronave. Portanto, esse foi um dos projetos concluídos com sucesso para um setor de ponta da nossa economia.

As universidades brasileiras estão preparadas para dar sua contribuição que o País precisa em termos de desenvolvimento sustentado?

Nós entendemos que as universidades continuam sendo as grandes produtoras de conhecimento, se levarmos em conta a veiculação de artigos científicos em publicações periódicas internacionais. Olhando esse indicador, vamos observar que, de 2000 a 2008, o número de artigos produzidos e publicados por universidades públicas brasileiras duplicou, passando de 9.786 para 18.783. Cerca de oito universidades são responsáveis por dois terços dos artigos publicados. A USP, que tem 5.400 professores doutores, se destaca nesse universo. Então, podemos afirmar, sem dúvida, que a universidade tem contribuído muito para o desenvolvimento do País, gerando conhecimento científico e capacitando talentos, que precisamos, não só para continuar inovando, mas também para apoiar o setor produtivo.

Como o senhor avalia a contribuição da Fapesp, especificamente, em relação à formação de mão de obra especializada?

Em primeiro lugar, é preciso ficar claro que não há pesquisas sem pessoas qualificadas. Baseado nesse princípio, além dos projetos que nós apoiamos financeiramente para importantes setores, um , terço de nossos recursos é voltado para o financiamento de bolsas de iniciação científica. Devemos pensar nos quadros que garantem o desenvolvimento da pesquisa e inovação, tão essenciais para o nosso desenvolvimento sustentado. Além disso, também temos uma preocupação com o tema da internalização da ciência e da pesquisa. Em tempo de globalização, ninguém fica mais restrito no âmbito territorial. Nesse sentido, temos procurado desenvolver acordos com empresas, como é o caso da Microsoft, que favoreçam a interação entre pesquisadores norte-americanos e brasileiros, por exemplo.

Que outras competências o Brasil ainda precisa desenvolver, além das que vêm saindo das universidades e das escolas técnicas?

Estamos vivendo um cenário em que o mundo é caracterizado pela sociedade da informação. Dessa forma, achamos que a geração, a divulgação e o acesso ao conhecimento são muito importantes para nosso desenvolvimento. É natural que o acesso a esse conhecimento ocorra na velocidade que as coisas acontecem hoje na economia globalizada. Só assim será possível agregar valor aos nossos produtos por meio da pesquisa e do desenvolvimento. Nós sabemos que hoje tanto a infraestrutura quanto as pessoas que operam no chão de fábrica evoluíram muito. O tempo necessário para criar um produto e colocá-lo no mercado também é bem diferente do que acontecia há 20 anos. Por outro lado, a nossa competitividade sistêmica passa também pela capacidade de fazer pesquisa e inovação, acompanhando essa evolução e complexidade.