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Alô Tatuapé

40% das mortes no trânsito na capital têm relação com o uso de álcool, aponta estudo

Publicado em 15 novembro 2016

Por Karina Toledo, da Agência FAPESP

A conclusão é de uma pesquisa realizada com apoio da FAPESP na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). Os dados foram publicados na semana passada na revista Addiction.

De maneira geral, segundo os autores, cerca de 30% das mortes violentas no período estão associadas ao consumo de álcool – sendo 34,6% o índice entre as vítimas de homicídio e 13,6% entre os casos de suicídio. A estimativa está baseada em dados de 365 autópsias realizadas ao longo de 19 meses em unidades do Instituto Médico Legal (IML) da capital paulista.

“A taxa de alcoolemia entre as vítimas de morte violenta avaliadas foi, em média, de 1,10 grama de álcool por litro de sangue. É uma concentração alta. Para um homem com cerca de 70 quilos, por exemplo, isso seria o equivalente à ingestão ao redor de cinco latas de cerveja”, contou Gabriel Andreuccetti, autor principal do artigo.

A pesquisa foi conduzida durante o pós-doutorado de Andreuccetti, sob a supervisão do professor da FMUSP Heráclito Barbosa de Carvalho. Atualmente, a pesquisa continua em parceria com a Escola de Saúde Pública da Universidade da Califórnia, Berkeley, nos Estados Unidos, também com apoio da FAPESP, por meio de Bolsa Estágio de Pesquisa no Exterior (BEPE – PósDoutorado).

O grupo desenvolveu uma nova metodologia para garantir que a amostra avaliada era de fato representativa do total de mortes violentas ocorridas na capital paulista.

“A coleta dos dados foi feita em diferentes dias da semana e em diferentes turnos de trabalho ao longo dos 19 meses. Por exemplo, iniciamos em uma segunda-feira pela manhã, coletando dados de todas as autópsias feitas naquele período. Na semana seguinte, coletávamos na segunda-feira à tarde e, na outra, segunda-feira à noite. Depois, na terça-feira pela manhã e assim sucessivamente”, explicou Andreuccetti.

Além de informações sobre o contexto da morte, também foram obtidas amostras de sangue das vítimas para avaliação da taxa de alcoolemia. Ao todo, foram reunidos dados de 656 vítimas, mas apenas 365 se encaixaram nos critérios estabelecidos pelo grupo.

Foram excluídos, por exemplo, os menores de 18 anos, as pessoas que receberam tratamento médico por seis horas ou mais antes de morrer e as autópsias realizadas mais de 12 horas após a ocorrência do ferimento fatal. O motivo, segundo Andreuccetti, é que mesmo após a morte os níveis de álcool no sangue vão sendo degradados com o passar do tempo – o que poderia comprometer a confiabilidade dos resultados obtidos.

Na amostragem final, conforme descrito no artigo, 28,5% dos casos de morte violenta correspondiam a vítimas de homicídio, 15,3% de acidentes de trânsito e 12,1% de suicídios. Todas as outras causas de morte violenta (incluindo afogamentos, envenenamentos e casos indeterminados) somaram 44,1%. Os números da pesquisa foram semelhantes às proporções observadas em estatísticas oficiais de números de óbitos por causas externas registradas para o município de São Paulo (DATASUS, 2013).

“A semelhança dos nossos números com as estatísticas oficiais sugere que nossa amostra é representativa do total de mortes violentas ocorridas na capital”, avaliou Andreuccetti.