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Jornal da Cidade (Bauru, SP) online

4 cidades do Estado não registram casos de dengue

Publicado em 03 maio 2015

O número de doentes com dengue no Estado de São Paulo ultrapassou os limites - é recorde histórico com mais de 257 mil casos. Mas quatro das 641 cidades, Barra do Chapéu, Monteiro Lobato, Timburi e Torre de Pedra, se mantêm sem casos autóctones, o que significa que naquelas localidades não há transmissão da doença, segundo boletim da Vigilância Epidemiológica do Estado, disponível no site: www.cve.saude.sp.gov, de 10 de abril deste ano.

Timburi, região de Piraju, e Torre de Pedra, região de Botucatu, estão a cerca de 150 quilômetros de Bauru, onde foram registrados mais de 2.600 casos da doença, entre autóctones e importados, além de três mortes neste ano. Para saber qual é o segredo das cidades que se mantêm em jejum da dengue, a equipe do Jornal da Cidade foi visitar Timburi.

Lá, o secretário de Saúde e o prefeito apostam que o trabalho preventivo é que livrou o município de casos contraídos no local. A limpeza e a recolha de possíveis criadouros do mosquito são para eles o melhor remédio. O que não deixa de ser,  um especialista foi procurado pela reportagem para explicar que além disso há vários fatores que influenciam os dados.

O que elas têm em comum? São cidades de pequeno porte. Timburi tem pouco mais de 2.800 habitantes; Torre de Pedra, 2.200; Barra do Chapéu, 5.244 e Monteiro Lobato, 4.424, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Porém, um número baixo de habitantes não é suficiente para garantir a distância da dengue, afirma o especialista Jayme Augusto de Souza-Neto da Unesp/Botucatu. Para ele, a transmissão da doença depende de uma combinação de fatores. O climático pode influenciar, por exemplo, no desenvolvimento do vírus da dengue nos mosquitos que estão neste local. O vírus precisa de uma certa temperatura para se desenvolver no mosquito. Se os municípios têm temperaturas mais baixas, pode acontecer dele não encontrar a boa temperatura para se desenvolver no inseto.

Cauteloso, o professor explica que para aferir de fato o que está acontecendo seria necessário estudos mais aprofundados de pelo menos alguns fatores em cada um desses municípios. Os  fatores culturais-históricos da população também devem ser considerados. Há populações resistentes ao vírus e outras mais suscetíveis. Há pessoas que são naturalmente resistentes ao vírus e mesmo que estejam contaminadas com ele, elas não desenvolvem a doença.

Outra hipótese aventada pelo especialista é do mosquito não ser um bom transmissor. Há mosquitos que não são bons transmissores. Esse é um dos focos da pesquisa em laboratório. Os mosquitos encontrados naquela cidade podem, por exemplo, entrar em contato com o vírus, mas não se infecta com o Aedes. Alguns são naturalmente resistentes, isso são possibilidades. Teria que coletar os mosquitos para fazer um estudo.

Timburi é uma cidade bucólica de vida simples. A única igreja, Santa Cruz de Timburi, está em reforma e a sua frente tem uma praça bastante arborizada. Só recebe turista em grande quantidade na época da festa Fespinga, que acontece no mês de agosto de cada ano. A antiga rodoviária, que recebia um único coletivo, virou sala de informática de um projeto para preparar o menor para o mercado de trabalho.

A comerciante Maria Edite Moura confirma que periodicamente é visitada pelos agentes comunitários e sabe que deixar água parada pode dar chance ao mosquito Aedes aegypti de proliferar na cidade. Os agentes vistoriam os quintais e pedem para que a gente não deixe água parada. Eu não deixo, porque tenho medo de ficar doente. Ela explica que viaja pelo menos uma vez por semana para as cidade vizinhas, Piraju e Bernardino de Campos. Tudo tem que ser por lá, compro roupa, sapato, mando consertar aparelhos eletroeletrônicos, aqui não tem quase nada, lamenta.

A população cria gado e cultiva café, segundo ela. A maioria dos moradores são sitiantes. Na cidade há três açougues, nenhum cinema e poucas lojas de comércio. Não é todo tipo de material que encontramos por aqui.

Dona de um bar em frente à praça da igreja, Edite Moura frisa que, aos sábados e domingos, os jovens se juntam na praça para conversar e namorar. É o antigo footing. Os jovens dos sítios vêm para a cidade e se conhecem aqui. Arrumam namoradas e movimentam o bar. Tudo acontece até as 22h. Depois, todos se recolhem.

A mulher lembra que grande parte dos jovens estuda em Ourinhos ou Piraju. Tem muita gente que estuda fora, porque aqui só tem aulas diurnas. As noturnas são nas cidades vizinhas.

15 anos sem dengue

A cidade de Timburi (170 quilômetros de Bauru) não registra há mais de 15 anos um único caso de dengue. Recentemente, uma pessoa com suspeita da doença foi diagnosticada, porém oriunda de Marília, onde há registro de nove mil casos. O segredo é que a cidade é pequena, tem 2.860 habitantes, a maioria em zona rural, faz a tarefa de casa na prevenção e tem muita, mas muita sorte. Com isso, os casos nascidos no próprio município, conhecidos por autóctones, não são registrados.

Embora a menos de 20 metros do posto de atendimento médico, e quase em frente a uma casa que abriga idosos, existe um bebedouro de animais. No início da semana, quando o JC visitou a cidade, o local tinha água parada e até larvas. É bem verdade que não coletamos as larvas para saber se eram do Aedes aegypti, portanto não se pode afirmar se eram mosquitos transmissores da dengue.

O secretário de Saúde, Adilson Almeida Pozza, explicou que uma vez por mês a água é removida. Nós estamos atentos ao bebedouro de cavalo. Uma vez por mês, pelo menos, removemos aquela água. A prefeitura abre a saída para escoar a água. O bebedouro é usado pelos moradores das propriedades rurais que chegam à cidade com cavalos.  Para explicar que o município não registra casos de dengue há mais de 15 anos, o secretário diz: Nosso município não serve de passagem de pessoas. Ele é bem localizado. Para vir em Timburi, a pessoa tem que se direcionar para cá mesmo. A população é pequena, todo mundo se conhece e isso simplifica as orientações.

Ele ressalta que uma cidade sem dengue se deve a um trabalho de prevenção feito no município. No início do ano, época das chuvas, a gente intensifica muito a prevenção. Fazemos visitas casa a casa para evitar a proliferação dos mosquitos.

Nos demais períodos do ano, os agentes fazem a tarefa de casa recolhendo materiais que possam acumular água.

O secretário comenta que, recentemente, um caso suspeito, chegou em Timburi, mas é de uma pessoa que veio de Marília, onde enfrenta epidemia da doença.

Bactérias intestinais do Aedes podem ser arma contra a dengue

Entender como o conjunto de bactérias que coloniza o intestino do Aedes aegypti influencia a suscetibilidade do mosquito ao vírus da dengue é o objetivo da pesquisa conduzida na Universidade Estadual Paulista (Unesp), câmpus de Botucatu, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Para Jayme Augusto de Souza-Neto, coordenador do estudo, a descoberta de fatores que tornam o mosquito refratário ao vírus pode, no futuro, abrir caminho para o desenvolvimento de estratégias que ajudem a bloquear a transmissão da doença. O objetivo é desvendar a troca de informações entre a microbiota intestinal e o sistema imune do Aedes. Entender de que forma isso determina o sucesso da infecção no inseto e, consequentemente, da transmissão do vírus para humanos, afirmou Souza-Neto.

Quando o mosquito suga o sangue contaminado, explicou o pesquisador, o primeiro local em que o patógeno se aloja e se replica é o intestino. Nesse tecido ele precisa driblar os mecanismos de defesa para conseguir se disseminar pelo corpo do inseto e atingir as glândulas salivares. Um dos principais mecanismos de defesa do Aedes é a ativação de genes que codificam proteínas com ação antiviral. Outro componente é a microbiota intestinal, mas ainda não sabemos de que forma ela influencia a resposta imune, disse Souza-Neto.

Existe a possibilidade de que algumas bactérias atuem de forma direta, produzindo moléculas com ação antiviral. Outras podem interferir de maneira indireta, ativando vias de sinalização que estimulam o sistema imunológico do inseto a combater o invasor. Estudos anteriores mostraram que a suscetibilidade ao vírus da dengue é bastante variável nas diferentes populações do mosquito vetor. Os primeiros resultados de experimentos realizados pelo grupo de Souza-Neto no Ibtec da Unesp sugerem que a microbiota intestinal é um dos fatores por trás dessa variação.

Possíveis aplicações

O grupo de pesquisa tenta separar os genes ativados pela infecção de maneira independente da microbiota daqueles que sofrem interferência das bactérias intestinais. Embora o objetivo da pesquisa no Instituto de Biotecnologia (Ibtec-Unesp) seja compreender a complexa interação entre o microbioma intestinal e a resposta imune do mosquito ao vírus da dengue, Souza-Neto vislumbra possibilidades de aplicar esse conhecimento no futuro. Se conseguirmos encontrar uma espécie bacteriana capaz de induzir forte resposta antiviral no mosquito, abriremos a possibilidade de cultivar populações de Aedes nas quais essa bactéria seja predominante no microbioma intestinal, disse o pesquisador. Outra possibilidade, segundo Souza-Neto, seria encontrar um gene-chave para tornar o inseto resistente à infecção. Nesse caso seria possível desenvolver um mosquito transgênico no qual esse gene está superexpresso, disse o pesquisador.

No Brasil, foi inaugurada em 2014, pela empresa britânica Oxitec, a primeira fábrica de mosquitos Aedes aegypti transgênicos. Nesse caso, porém, a modificação genética não altera a capacidade do inseto de se defender da doença e sim de produzir uma prole viável. Para Souza-Neto, as duas estratégias são complementares, assim como as medidas  de controle do vetor, entre elas a eliminação de criadouros.

Prefeito comemora jejum de dengue

O prefeito da cidade de Timburi, Luiz Cabral Zurdo (PSDB), comemora o jejum prolongado de dengue. Para ele, manter os moradores longe da doença é fruto do trabalho de prevenção. A orientação é diária. Trabalhamos direto na busca por resíduos que possam acumular água, pneus, móveis, descartáveis etc.

Na opinião dele, nos últimos anos a cidade cresceu muito e os desafios também. Dividimos a cidade em setores. São seis agente comunitários que percorrem os setores diariamente, orientando e recolhendo possíveis criadouros. A população vive da agricultura e agropecuária.

A coleta de recicláveis é semanal e mensalmente, um caminhão da prefeitura faz um mutirão, recolhendo móveis e outros materiais que possam acumular lixo ou água. Os agentes mais uns funcionários da prefeitura recolhem o material reciclável todas as quintas-feiras. O serviço foi implantado há dois anos. Inicialmente houve resistência da população, até que se criasse o hábito. Eles separam o reciclável do lixo doméstico e colocam na rua. O caminhão recolhe.

A separação dos recicláveis é feita por uma família, explica o prefeito. Temos uma família que faz esse serviço de separação dos materiais. Uma vez por mês, um caminhão da prefeitura leva todo o material, cerca de 20 toneladas para uma usina de reciclagem na cidade de Piraju. Com o dinheiro, pagamos a família.

A orientação das crianças é feita na própria escola. Temos a orientação sobre a proliferação do mosquito e sobre a doença nas escolas daqui. Procuramos educar as crianças, elas ajudam os adultos com as informações. O fluxo de pessoas de Timburi para Bernardino de Campos, Sarutaiá e Ipaussu, onde há casos de dengue, é diário.

Torre de pedra

O município de Torre de Pedra (163 quilômetros de Bauru) era considerado não infestado até 2014, segundo a secretária municipal de Saúde, Joisse Caria Barboza. Como preconizado pela Superintendência Controle de Endemias (Sucen) trabalhávamos com armadilhas e visitas a imóveis especiais. Porém, com o histórico de nossa região com inúmeros casos, nossos agentes de saúde foram treinados para no ato da visita já efetuarem a vistoria nos quintais e as orientações pertinentes.

Para  conscientizar a população sobre os perigos da proliferação do mosquito e dos riscos da doença, o município faz dois arrastões por ano para limpeza dos quintais e retirada de materiais inservíveis que possam acumular água. A cidade está há 10 anos sem caso de dengue. O município tem pouco mais de dois mil habitantes.

A secretária admite que embora não tenha doentes, há mosquito em circulação. Apesar de todo o empenho por parte da equipe e da população, neste ano passamos a trabalhar somente fazendo o casa a casa e arrastões, devido a positividade de larvas em nossas armadilhas o que indica que temos o mosquito, mas ele não está infectado. Em Torre de Pedra foram notificados 16 casos que estão sob investigação. Dois foram positivos, porém são importados, ou seja, as pessoas contraíram em outras cidades e voltaram para Torre de Pedra.