Notícia

Boletim do Acadêmico

3ª Conferência Nacional de CT&I

Publicado em 28 novembro 2005

Segundo o Acadêmico Carlos Aragão, diretor da Finep e secretário-geral da 3ª CNCTI, o balanço da conferência, que teve 1.500 participantes, foi positivo. Aragão anunciou a divulgação de um documento em que serão enunciadas uma série de propostas feitas durante as sessões, documento esse que será encaminhado tanto ao poder Executivo como ao Legislativo e ao Judiciário.

O Acadêmico afirmou sua posição de que "a inovação é uma das ferramentas necessárias para que um país possa gerar riquezas e obter o seu desenvolvimento econômico e social, mas é apenas parte do problema". De acordo com seu ponto de vista, um país tem que investir também de forma maciça em educação, infra-estrutura, transportes e na diminuição de sua carga tributária, por exemplo, para que todas as engrenagens do sistema possam funcionar plenamente. "Além da questão burocrática, é fundamental o investimento em recursos humanos. Temos que formar mais pesquisadores", disse o físico teórico.

A Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) apresentou duas novidades para tentar melhorar o cenário da inovação nacional. "O Programa Juro Zero, lançado em 31/10, pretende financiar projetos de R$ 100 mil a R$ 900 mil, sem burocracia, sem carência, sem garantia real e em cem parcelas", disse Aragão. Depois de ter sido lançado em Curitiba, o programa está em fase de implantação em cidades como Salvador, Fortaleza, Florianópolis e Recife.

A outra novidade é o Programa Inovar Semente, que deve ser apresentado de forma oficial até o fim do ano, direcionado a empresas inovadoras que já passaram pela fase inicial e estão precisando de fôlego para crescer. "Serão beneficiadas de 10 a 15 empresas de cada vez, por sete anos, com recursos que vão de R$ 10 milhões a R$ 20 milhões", declarou o diretor da Finep. O Inovar Semente será estabelecido em cidades com forte vocação inovadora, "onde existam universidades fortes, número expressivo de empresas e agências de desenvolvimento locais", como explica Aragão. Ou seja, além dos recursos, a cultura inovadora também é o caminho para os interessados em alavancar processos desse tipo.

Quando o assunto é tecnologia e inovação, não é apenas o aspecto científico que deve ser considerado. É preciso levar em conta também os processos econômicos e sociais.  "A tecnologia desenvolvida por uma sociedade é parte integrante de sua cultura", disse o Acadêmico Evando Mirra, que está deixando a presidência do Centro de Gestão de Estudos Estratégicos (CGEE).
 "Enquanto a tecnologia faz parte da ordem do jogo, a inovação, com seus componentes técnicos e sociais, está relacionada com a mudança da regra desse jogo."

Mirra deu o exemplo da criação da lâmpada elétrica, demonstrada pela primeira vez por Thomas Edison, em 1879. "A iluminação antes era baseada na queima, e a lâmpada elétrica, fruto de um trabalho cooperativo entre indústria, cientistas e universidades, surgiu com base em um processo totalmente diferente. Não havia mais a queima", lembra o também professor emérito da Escola de Engenharia da Universidade Federal de Minas Gerais.

Na Conferência, o Acadêmico apresentou o que chamou de "janelas de oportunidades para a inovação". Essas aparecem como um fato social e não apenas científico, em áreas como tecnologia da informação, biotecnologia, nanotecnologia, genômica, robótica, materiais avançados e energias alternativas. "Há, no Brasil, uma capacidade de inovação grande, mas ainda está muito pouco explorada", diz.

Além de incorporar a dimensão cultural, social e econômica da tecnologia, Mirra defende uma mudança de governança nessas diferentes esferas, para que a capacidade instalada no Brasil possa ser mais bem aproveitada. "Claro que, nesse caso, quando os diversos atores participam surge a dimensão da divergência. Mas isso não é obstáculo, é parte da solução. Nesse ponto é que temos que aprender bem mais", afirma.

No que depender do ministro da Ciência e Tecnologia, o Acadêmico Sergio Rezende, todas as propostas serão bem recebidas. "Gostaria de firmar o compromisso de que as conclusões dos trabalhos apresentados neste evento terão a minha mais alta consideração, em tudo o que for possível", disse. Segundo o ministro, as políticas públicas atuais do Ministério da Ciência e Tecnologia foram em grande parte inspiradas na conferência de 2001, com o objetivo de enfatizar a importância da inovação tecnológica como instrumento para a competitividade. "Agora, temos muito mais razões para seguir as propostas e decisões da nova edição da conferência."

Algumas medidas propostas pela 3ª CNCTI já podem ser adiantadas. "Uma questão clara é a da subvenção financeira para a inovação. Uma das propostas que deverá constar do documento é a limitação do contingenciamento dos fundos setoriais. O ideal é que esse limite seja de 40% e que diminua até 2009", disse Aragão. "Outro grande avanço que sai da conferência é o consenso de que a política industrial deve ser acoplada ao sistema de C,T&I, junção que vai fomentar o desenvolvimento do país. Temos que criar e consolidar os mecanismos para que esses laços fiquem cada vez mais fortes".

 (Fonte: Agência Fapesp, 22/11)