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A Notícia (Joinville, SC) online

300 anos dos negros no Brasil

Publicado em 09 dezembro 2000

Joinville - Uma pesquisa de dois anos e meio retoma a cruel história dos negros no Brasil, raça que segundo o antropólogo Darci Ribeiro está no sangue de 95% dos brasileiros. O livro "A Travessia da Calunga Grande - Três Séculos de Imagens sobre o Negro no Brasil" (Edusp), do sociólogo Carlos Eugênio Marcondes de Moura, faz um levantamento exaustivo da iconografia sobre o negro no período de 1637 a 1899. A brutalidade da escravidão aparece praticamente em cada uma das páginas. Há flagrantes da violência contra os negros escravos, paisagens urbanas onde eles viviam, escarificações faciais ou marcas de identidade, indicando a filiação a um clã, a uma divindade, adornos. No corpo, as marcas feitas a ferro em brasa para identificar a quem o escravo pertencia ou para marcar o fato de sido batizados ou que seus donos pagaram os direitos devidos à Coroa. Moura catalogou 2.650 imagens, das quais selecionou 507. A principal fonte da pesquisa é o acervo do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB), mas uma parte dos registros são da biblioteca particular de Guita e José Mindlin. O trabalho resultou em um retrato do cotidiano da população encrava a partir do ponto de vista de diversos artistas, desde os trazidos pelo conde Maurício de Nassau, durante a ocupação holandesa no Nordeste do Brasil, no século 17 aos dos viajantes, artistas contratados pelas missões científicas, comerciantes, diplomatas que percorreram o País até o século 19. O livro traz, por exemplo, imagens dos desenhistas da expedição comandada pelo sábio baiano Alexandre Rodrigues Ferreira em viagem pela Amazônia no final do século 18, além de dezenas de registros de Carlos Julião, um militar de Turim que esteve no Brasil a serviço da Coroa Portuguesa. As reproduções do século 19 que se encontram em revistas ilustradas, segundo Moura, foram publicadas por Angelo Agostini na "Revista Ilustrada" e Henrique Fleiuss na "Semana Ilustrada", que circularam no Rio de Janeiro. O livro publica ainda imagens de estúdio de negros escravos de autoria de Christiano Júnior e de negros não escravos de autoria do fotografo carioca radicado em São Paulo Militão Augusto de Azevedo. Todo o material iconográfico é acompanhado de um índice de assuntos, de artistas e outro topográfico (de vilas e acidentes geográficos onde os negros viviam) que remetem a uma bibliografia. Com 700 páginas, "A Travessia da Calunga Grande" é o sexto livro da Coleção Uspiana, de 12 volumes, em homenagem aos cinco séculos de descobrimento do Brasil. A Editora da Universidade de São Paulo (Edusp) e a Imprensa Oficial programaram para este ano mais um título - o "Guia dos Museus Brasileiros". O AUTOR Moura é formado pela Escola de Artes Dramáticas de São Paulo e doutor em sociologia pela USP, onde foi professor do Departamento de Teatro da Escola de Comunicação e Artes; e do Serviço de Teatro da Universidade Federal do Pará. Também é tradutor com mais 50 obras no currículo. A pesquisa foi patrocinada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e a Fundação Guggenheim, de Nova York. "ATRAVESSA DA CALUNGA GRANDE - TRÊS SÉCULOS DE IMAGENS SOBRE O NEGRO NO BRASIL", Carlos Eugênio Marcondes de Moura, Editora da Universidade de São Paulo (EdUSP), 700 páginas, R$ 100,00.