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200 anos de história

Publicado em 18 fevereiro 2008

Por Fábio de Castro, Agência FAPESP

Primeira instituição de ensino superior do Brasil, Faculdade de Medicina da Bahia comemora seu bicentenário nesta segunda-feira (18/2). Fundação foi uma das primeiras medidas de Dom João 6º após a chegada da família real ao país em 1808


A Faculdade de Medicina da Bahia (Fameb), da Universidade Federal da Bahia (UFBA), completa 200 anos nesta segunda-feira (18/2). A data será marcada por uma série de homenagens e pelo seminário Perspectivas da Medicina no Século 21, de 19 a 21 de fevereiro. A programação de comemorações se estende até o dia 15 de dezembro.

De acordo com o diretor da faculdade, José Tavares-Neto, a mais antiga instituição de ensino superior do Brasil nasceu com o nome de Escola de Cirurgia da Bahia e foi uma das primeiras medidas tomadas pela Coroa portuguesa após a chegada da família real a Salvador, em 22 de janeiro de 1808.

"Poucas instituições no país têm tanta história para contar. Um dos tesouros mais preciosos de Salvador, ao lado dos arquivos da Igreja, é o conjunto de atas da congregação da faculdade, que remonta a 1826. Trata-se de um testemunho da história do Brasil", disse Tavares-Neto à Agência Fapesp.

Apesar da importância, o acervo histórico da Fameb, com um total de 100 milhões e 200 mil páginas, corre risco de desaparecimento. "Entre 2004 e 2007 conseguimos recursos da Finep [Financiadora de Estudos e Projetos] para reordenamento e limpeza de todo esse material, que hoje está disponível para pesquisa. Mas os documentos, especialmente os dos primeiros 50 anos, estão muito fragilizados e, se não forem digitalizados e tratados, não deverão durar mais que cinco anos", disse o diretor.

A digitalização de todo o arquivo, segundo Tavares-Neto, foi avaliada em R$ 1,2 milhão. "Ainda não conseguimos esses recursos, o que é uma grande preocupação nossa. Enviamos projetos ao BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social] e ao Banco do Nordeste, que foram negados. Queremos abrir uma licitação para que uma empresa faça essa digitalização", contou.

Desde 2004, os arquivos estão de volta à sede tradicional da instituição no Terreiro de Jesus, no centro histórico de Salvador, assim como a diretoria, a secretaria, os cursos de graduação e alguns programas de pós-graduação da faculdade, que durante 30 anos ficou dispersa pela cidade.

"Estamos reocupando o prédio. A expectativa é que até 2011 a sede original será completamente restaurada e o arquivo digitalizado", afirmou. A faculdade foi retirada do Terreiro de Jesus em 1971, como resultado da pressão do governo militar da época, que desde 1964 via a instituição como foco de resistência à ditadura.

"A Fameb sempre teve posição de liderança na oposição aos poderes autoritários. No século 19, foi a primeira instituição do Brasil a elaborar documentos contra o sistema escravocrata. Seus professores estiveram entre os primeiros republicanos da Bahia e alguns foram perseguidos por isso. Com o regime de 1964 não poderia ser diferente", apontou.

Com a retirada da faculdade, o prédio de 12 mil metros quadrados entrou em decadência. Em 1980, ruiu o principal anfiteatro, deterioraram-se a cobertura e paredes de algumas alas e, com a queda do teto da biblioteca, foram perdidos 50 mil livros. O prejuízo foi pior do que o do incêndio ocorrido em 1905.

"A volta foi autorizada em 1994, mas o prédio estava tão degradado que tiramos seis caminhões de lixo dos jardins. E dois caminhões só de cadeiras quebradas. A quantidade de ratos era tão imensa que o sistema de zoonoses não dava vencimento", contou o diretor.

A resistência ao regime vigente foi, segundo Tavares-Neto, o principal fator que levou ao fechamento do prédio. "O estopim foi um episódio ocorrido em 1968, quando a rainha Elizabeth 2ª , da Inglaterra, visitou o Brasil. Ao adentrar o Terreiro de Jesus, acompanhada do governador, para visitar a catedral, a rainha foi recebida com uma sonora e constrangedora vaia pelos alunos nas janelas do prédio", disse.

Não foi o primeiro problema da Faculdade de Medicina da Bahia com ditaduras. Em 1932, a faculdade foi a única instituição fora do Estado de São Paulo a apoiar a Revolução Constitucionalista. O presidente Getúlio Vargas ordenou a invasão do prédio. Dezesseis professores que lideravam o movimento foram presos por dois anos.

"O governo também prendeu 114 alunos por três dias e mandou bombardear a faculdade. A unidade da Força Aérea na Bahia, que tinha um único avião, executou a ordem no dia 2 de agosto de 1932, mas errou o alvo. Um artefato bélico caiu na encosta vizinha à catedral, fora do pátio, matando um popular", disse.


Alunos com escravos

Em 18 de fevereiro de 1808, Dom João 6º seguiu o conselho do cirurgião-mor do reino, o pernambucano José Correia Picanço, e fundou a Escola de Cirurgia da Bahia. A nova escola tinha dois professores e pouca organização. "Foi um início precário, mas a escola sobreviveu até a reforma do ensino de 1815, quando o curso passou de quatro para cinco anos e começou a se consolidar", disse Tavares-Neto.

"As atas da congregação revelam fatos pitorescos. Um deles relata a tentativa de um diretor de proibir que os alunos levassem escravos para a faculdade, porque, enquanto os senhores estavam em aula, eles faziam barulho. Foi vetado por unanimidade com a justificativa de que ele não tinha o direito de disciplinar propriedades particulares", contou.

Em 1829, no período de regência, a escola deixou de ser uma simples repartição do governo e passou a ter um corpo diretivo. Em 1832, o curso subiu para seis anos e ganhou autonomia. "Até ali a interferência do governador era imensa. As provas eram realizadas em sua presença", disse.

A partir daquele ano, a instituição ganhou o nome atual de Faculdade de Medicina da Bahia e passou a formar doutores e não mais cirurgiões. "Até ali, os professores eram chamados de lentes, porque de fato não faziam muito mais que ler os livros franceses para os alunos. Com a reforma, começamos a produzir teses. Temos arquivadas todas as 4.820 que foram defendidas", explicou. O curso prático, no entanto, foi inaugurado apenas em 1896.

O intercâmbio com a Europa era intenso e a maioria dos alunos tinha elevado poder econômico. "Em 1889, por exemplo, os grupos sangüíneos foram descobertos na Europa. Oito meses depois, havia alunos da faculdade baiana citando trabalhos sobre o tema", afirmou.

A partir de 1870, segundo o diretor da Fameb, a produção acadêmica se tornou menos discursiva e teórica e passou a ter uma construção científica sólida, com uma marcante influência francesa.

Em 1864, foi fundada na faculdade a Gazeta Médica da Bahia, primeiro periódico científico brasileiro. Em 1887, pela primeira vez no Brasil, uma mulher foi diplomada como médica: a doutora Rita Lobato Velho Lopes.

Também no interior da instituição, em 1894, nasceu a Sociedade Acadêmica de Medicina, o embrião do movimento estudantil no Brasil, segundo Tavares-Neto. A entidade foi responsável pela primeira greve estudantil do país, que fechou a faculdade por dez meses em 1902.

Em 1897, professores da faculdade realizaram, pela primeira vez no mundo, uma radiografia para investigação de um ferimento por arma de fogo. A vítima havia sido baleada no conflito de Canudos.

(Agência Fapesp, 18/2)