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1º trabalho da UFSCar aceito em congresso de Moçambique foi enviado escondido por professora

Publicado em 15 outubro 2019

Por Geovana Alves*, G1 São Carlos e Araraquara

Um trabalho sobre políticas públicas para acessibilidade do negro surdo no Brasil é o primeiro a representar a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) no Congresso Internacional da Universidade Católica de Moçambique (UCM).

O texto foi inscrito no evento pela professora orientadora, que escondeu todo o processo seletivo de seu aluno até que o resultado fosse divulgado.

No Dia do Professor, comemorado nesta terça-feira (15), o G1 falou com os envolvidos na apresentação do material criado para as aulas de políticas públicas e surdez, do curso de tradução e interpretação de libras/língua portuguesa, em São Carlos (SP).

Reflexão sobre a realidade

Na disciplina da professora e doutora em educação especial Diléia Aparecida Martins Briega, de 36 anos, os estudantes precisam refletir sobre como melhorar a realidade das pessoas com deficiência auditiva por meio das políticas públicas. Para isso, a turma elaborou projetos que contemplassem a comunidade surda em segmentos diferentes.

O graduando Wesley Nascimento Santos, de 24 anos, escolheu a acessibilidade do negro surdo pensada no acesso ao ensino superior, devido a própria vivência “é o ambiente que mais estou inserido no momento e o que eu percebo é que havia um processo histórico em que o negro perdia oportunidades e o surdo também vivia essa experiência”.

Dificuldades

Durante a produção, Santos teve dificuldades em encontrar base teórica para sua reflexão, porque precisava usar autores que discutem identidade surda junto com outros que falam sobre negritude.

De acordo com Diléia, o preconceito também esteve presente em diversos momentos do trabalho, mas com apoio foi possível seguir.

“Foi muito difícil lidar com o olhar atravessado sobre a negritude, sobre a surdez e foi imprescindível a ação dos colegas para nos fortalecermos e incluirmos essa leitura de mundo, de que é possível ser negro e surdo na universidade pública”, contou a professora.

Apresentação em congressos

Em 2018, o texto foi apresentado em formato de pôster no Congresso Luso-Afro-Brasileiro (CONLAB), onde outros professores indicaram que o aluno inscrevesse o trabalho para o evento da Universidade de Harvard.

Segundo a doutora em educação ambiental, algumas pessoas desacreditaram em Santos quando ele contou que o pôster foi elogiado e isso “representa o impacto do texto para a sociedade, porque as pessoas pensam que um trabalho sobre negros e surdos não tem relevância para Harvard”.

Inscrição em segredo

Daí surgiu a ideia de inscrever o texto no evento da UCM, já que a comissão julgadora é formada por profissionais renomados e a seleção tem critérios bem estabelecidos. Contudo, Diléia não contou nada ao orientando.

Quando o resultado chegou, ela pediu que ele olhasse a carta, sem explicar do que se tratava. Para Santos, foi uma grande surpresa.

“No primeiro momento eu não acreditei, porque a professora me enviou a carta de aceite e aí eu li e reli, lembro de perguntar “nosso trabalho foi aceito professora? Mas como isso?” Aí eu mostrei para a minha mãe, para minha família, para os meus amigos, para a UFSCar inteira, porque antes o trabalho não era bem visto e nós estamos representando um tema que é pouco investigado, por isso tamanha surpresa” explicou o aluno.

Necessidades

Os dois desenvolveram o trabalho para que ele chegasse na modalidade de comunicação oral, a qual será apresentada em Moçambique, com um texto mais avançado.

Para viabilizar sua participação no evento internacional, o estudante precisa de uma intérprete de libras para a apresentação, bem como um auxílio de R$ 7 mil para pagar as despesas da viagem, como hospedagem, passagens e alimentação.

Enquanto aguarda o parecer da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), sobre uma possível ajuda de custo, o aluno tem organizado rifas, vendido doces e até mesmo divulgado sua “vaquinha” online.

O evento será realizado nos dias 20 e 21 de novembro e Santos espera conseguir reunir o valor para representar um tema tão relevante no congresso internacional.

* Sob supervisão de Fabio Rodrigues, do G1 São Carlos e Araraquara.

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