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Jornal GGN

1º de abril de 1964, a carta e Violeta Parra, por Lúcio Verçoza

Publicado em 31 março 2019

Por Lúcio Verçoza**

Voltar para 1º de abril de 1964, depois de viver meio século, é como decifrar signos e retirar musgos da memória. As cidades eram menores, o telégrafo e a rádio transmitiam notícias sobre as tropas nas ruas. A carta enviada demorava a chegar:

Me enviaram uma carta

Pelo correio hoje cedo

E nesta carta me dizem

Que foi preso meu irmão

E sem piedade com grilhões

Pelas ruas o arrastaram, sim

Em Maceió, abril de 1964 começou com prisões generalizadas. Havia bloqueios policiais e do Exército em pontos estratégicos da cidade. O encarceramento se dava sem acusação formal. Dentre os primeiros detidos daquela manhã, encontrava-se Manoel Simplício de Miranda, proprietário do Hotel Atlântico. No momento em que foi decretada sua prisão, estava de carona no carro de um hóspede. O veículo, ao se aproximar da ladeira da Catedral, foi interceptado por uma viatura do Exército. O hóspede, que era médico, reclamou da arbitrariedade e exigiu explicações. Ambos acabaram na cadeia.

Mais tarde, o Hotel Atlântico foi invadido pelos militares. Metralhadoras e fuzis dividiam o espaço do corredor com hóspedes, mulheres e crianças. Naquela altura, os homens da família estavam presos ou foragidos. Após revirar os quartos e não encontrar nada que pudesse ser enquadrado como subversivo, o delegado Albérico Barros ordenou que seus subordinados fizessem uma fogueira com jornais velhos na porta do hotel. O fogo queimava na margem esquerda do Riacho Salgadinho, em plena Avenida da Paz. Alguns passantes observavam com medo, outros cochichavam com os olhos de curiosidade.

A carta diz o motivo

Que cometeu Roberto

Ter apoiado a greve

Que já tinha se resolvido

Se por acaso isto é o motivo

Presa também vou, sargento, sim

O velho Miranda não era de se envolver em política. No entanto, tinha filhos comunistas e isso, a partir daquele dia, era motivo suficiente para ser preso. O mesmo era válido para irmão de comunista. Wilton, que trabalhava nos Correios e nunca havia participado de comício ou panfletagens, foi encarcerado naquele mesmo dia, simplesmente por causa do sobrenome. Lá, encontrou vários sindicalistas, estudantes, advogados, jornalistas, intelectuais, primos e seu irmão, Jayme Miranda – que era advogado, editor do jornal A Voz do Povo e dirigente do Partido Comunista. Antes de ser preso, viu a sede do jornal, situada na Rua do Comércio, ser depredada por policiais e apoiadores do golpe.

Na cadeia, não tinham notícias de Nilson Miranda, o irmão mais novo. Ele era jornalista, vereador de Maceió e membro do Partido Comunista. Após contundentes discursos na Câmara, havia despertado a ira dos grupos que tramaram o golpe, chegando inclusive a sofrer ameaças de morte. Em sua fuga, levando somente a roupa do corpo, caminhou por canaviais, pegou caronas na beira da estrada e viajou escondido na carroceria de caminhão. A partir dessa data, viveu por mais de uma década como um desterrado em sua própria terra: mudando de nome, endereço e cidades.

Por sorte tenho violão

Para chorar minha dor

Também tenho nove irmãos

Fora o que foi preso acorrentado

Todos são comunistas

Com o favor de meu Deus, sim

Eram ao todo dez irmãos, no entanto somente dois eram comunistas. Mas isso pouco importava; no fundo, para a repressão, todos eram comunistas, sim. Inclusive o médico, que questionou o motivo da prisão de um idoso com 69 anos de idade, era suspeito até que se provasse o contrário.

Na recepção do Hotel Atlântico, Hermé Amorim de Miranda aguardava notícias do marido e dos filhos. Pouco antes, havia enfrentado jovens oficiais com a cabeça erguida: – Quem vocês vão prender agora, as mulheres ou as crianças? Um dos jovens fardados, ela vira crescer desde menino, ele jogava bola na Praia da Avenida. Mirando as chamas da fogueira, dona Hermé se perguntava: – Será que daqui a meio século esses acontecimentos não serão lembrados como uma brutal violência?

Tinha visto insolência

Barbárie e traição

Para exibir o trabuco

E matar a sangue frio

Quem defesa não tinha

Com as duas mãos vazias, sim

O dia não acabou ali. A mentira de 1º de abril se prolongou nas décadas seguintes. Quase 11 anos depois, em 22 de março de 1975, o velho Manoel Simplício de Miranda escreveu uma carta para o presidente da República e para o ministro da Justiça:

“[…] Em nome do Conselho dos Advogados, para uma luz oficial que alumie e alivie a dor da incerteza de uma família numerosa e simples (como simples e numerosa são todas as famílias do norte), é a busca do meu filho querido que saiu de casa na manhã de 4 de fevereiro próximo passado e não mais foi visto nas ruas, nos hospitais, nos necrotérios, nas prisões que nos permitiram chegar perto. Meu filho, doutor ministro, é um advogado de 49 anos de idade, pai de quatro encantadoras crianças, um homem brilhante eu poderia considerar, não teve o receio de infringir as restrições da hora vivida que tira do homem o direito de livre ideia e de livre pensar. Trata-se de Jayme Amorim de Miranda, ex-suplente de deputado estadual, ex-diretor do jornal A Voz do Povo, cassado e preso em 64 e libertado quase um ano depois, sem ser ressarcido da sua propriedade confiscada e destruída, residindo na Guanabara desde então. Meu filho não é um criminoso, senhor ministro da Justiça, ele é um pensador que pode não comungar daquilo que o poder oficial considera correto ou absolutamente certo. É um homem, e como tal, sujeito a erros passivos ou não de punição, mas igualmente ser humano digno de respeito ou da simples comiseração do Estado.

O tempo, os meus 79 anos, me tiraram a luz dos olhos, senhor ministro. A luz, o vigor do meu coração, o relógio da vida, está igualmente a se extinguir. Permita-me, ilustre homem público que detém tanta força nas mãos, que um pai possa pelo menos morrer tranquilo, sabendo o filho desaparecido, vivo ou morto. Permita em nome da honra de Vossa Excelência que eu possa, antes de entregar minha própria alma ao criador, enterrar meu morto mais querido, ou cobrir no amparo de meus netos e minha nora aquele que o país decidiu julgar. Um velho chora no papel o desespero da incerteza. Ajuda senhor ministro com o vosso prestígio e senso de humanidade ao servo humilde do clã e uma família muito querida, para que eu possa fechar os olhos cônscio do dever cumprido. O dever do pai da proteção do filho”.

Voltar a 1º de abril de 1964 é como decifrar signos, como o muro na hera, como uma remela retirada dos olhos. O velho Miranda morreu cego e sem rever o filho. A carta nunca foi respondida pelas autoridades. Recentemente, foram revelados documentos que demonstram que o presidente Geisel autorizou a tortura e assassinato de opositores da ditadura. Segundo a Comissão Nacional da Verdade, 434 pessoas foram assassinadas por divergência política com o regime. Além da eliminação física, estima-se que mais de 30 mil pessoas foram torturadas por agentes do Estado. Muitos desses casos de tortura não constam nos registros oficiais, pois vários arquivos foram propositalmente incinerados para ocultar o crime. Segundo o mesmo relatório, aproximadamente oito mil indígenas foram exterminados naquele período.

Após quase meio século, a amada esposa de Jayme, Elza, prossegue com os filhos e netos em busca dos restos mortais de seu ente querido. A dor também permanece entre seus irmãos e na geração de sobrinhos e sobrinhos-netos. Se Hermé Amorim de Miranda ainda estivesse viva continuaria com a mesma indagação de abril de 1964: – Como alguém pode compactuar com tamanha violência?

Eu que me encontro tão longe

Esperando uma notícia

Vem me dizer a carta

Que em minha pátria não há justiça

Os famintos pedem o pão

Chumbo lhes dá a milícia, sim (VIOLETA PARRA, La Carta)

*Esse texto foi produzido a partir das memórias e relatos orais das irmãs Zenaide Miranda e Neiza Miranda, do livro Oh, pedaço de mim (MIRANDA, Olga. Maceió: Q – Gráfica, 2017), de fichas do DOPS disponíveis no Arquivo Público de Alagoas e das músicas de Violeta Parra (La Carta e Volver a los 17).

** Doutor em Sociologia pela Universidade Federal de São Carlos e autor do livro Os homens-cangurus dos canaviais alagoanos: um estudo sobre trabalho e saúde (Edufal/Fapesp).